Histórias que a pele conta
Cronista questiona pessoas sobre significados de tatuagens e coleta justificativas curiosas e contraditórias.
Uma jovem de BH com tatuagem de siri na testa afirmou representar "ancestralidade marítima", apesar de nunca ter vivido em vila de pescadores.
Mulher com código de barras na nuca disse ser "crítica ao consumismo", mas revelou já ter tentado passar o código em caixas de supermercado.
Autor critica a tendência de transformar tatuagens simples em explicações elaboradas, comparando a vontade de justificar a "rabiscos" com TED Talks.
Nada contra as tatuagens. Eu mesmo tenho duas. Pequenas e tão discretas que, às vezes, eu mesmo esqueço onde estão. Mas certas pessoas, como sempre, abusam. Especialmente na escolha de um determinado desenho e, mais ainda, na explicação que vem junto, como se a tatuagem viesse com manual, nota fiscal e certificado de autenticidade.
Por causa da minha crônica curiosidade de cronista, vivo perguntando aos outros a razão daquele siri gigante na testa ou de uma tromba de elefante começando no nariz e terminando no umbigo. Eis aqui algumas das respostas que tive das donas e donos dessas tattoos.
— O siri? — me disse uma moça de franja azul e expressão mística. — Representa minha ancestralidade marítima.
Perguntei se ela era de alguma vila de pescadores.
— Não. Sou de BH. Mas já fui à praia três vezes.
Outra senhora, que trazia um código de barras tatuado na nuca, explicou com serenidade filosófica:
— É uma crítica ao consumismo.
Perguntei se ela já tinha tentado passar o código no caixa do supermercado.
— Algumas vezes. Uma deu erro no sistema, a outra marcou R$ 3,99. Achei um desaforo.
Houve outro desenho bem semelhante. Um rapaz com um QR Code na testa.
— Se escanear, dá acesso ao meu currículo.
Escaneei. Era a foto dele segurando um gato. O felino parecia mais preparado para o mercado de trabalho que o dono.
Já a tromba de elefante no nariz tinha uma justificativa ecológica:
— É para lembrar que nunca devo esquecer.
Do quê, não foi explicado. Porém, para evitar constrangimentos, decidi não pedir mais detalhes.
Havia ainda uma moça com a palavra “Resiliência” tatuada nos seios, em letras góticas.
— Para eu ter sempre em mente a minha coragem.
— Nem sempre. As agulhadas doeram tanto que fugi do tatuador.
Meu favorito, contudo, foi o senhor de meia-idade com um mapa-múndi tatuado nas costas.
Perguntei quais países já tinha visitado.
— Guarulhos. Duas vezes.
Não me entendam mal. A tatuagem é uma forma legítima de expressão. A cada testa, nuca e costas justificadas, fui entendendo que o problema não é ela. É a vontade de transformar qualquer rabisco num TED Talk.
Eu, por exemplo, fiz uma âncora no tornozelo aos vinte anos. Dizia que era símbolo de estabilidade. Aos trinta, já estava no terceiro emprego e no segundo divórcio. Hoje digo que é para não ser levado pelo vento. O que, considerando minhas decisões financeiras, continua sendo uma metáfora bem otimista.
Mas é isso: tattoo a gente grava na pele achando que é na alma. E passa o resto do tempo tendo que defender a criação.
