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​Lobo Antunes, Zidane e os funcionários do futebol

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10.03.2026

Um amigo que paga as contas com a labuta no futebol mandou-me uma mensagem noutro dia. Não falávamos há mais de um mês. Partilhava com ácida e quase nobre satisfação o vídeo de Gareth Bale a dizer que Zinedine Zidane não fazia muito como treinador do Real Madrid. “Aí está. Zidane, grande treinador”, escreveu. Benzi-me mentalmente e concordei.

A minha descrença nos treinadores (ou na importância que têm) não é popular entre amigos. Zidane não foi para o Real Madrid ensinar alguém a jogar futebol, nem para ouvir espinhas a estalar. Como não havia grandes movimentos padronizados no seu Real, nem genialidades reconhecíveis ou decisões indizíveis, nem um suor místico ou gestos mirabolantes, o trabalho não foi de autor. Zizou respeitou a natureza dos jogadores, não se quis impôr ao protagonista, ainda menos ao artista.

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“Meter o futebol num computador parece-me muito imbecil. A única coisa que se consegue é converter os jogadores em imbecis”, defendeu há umas décadas César Luis Menotti, uma bússola para os que acham que o futebol devia ser outra coisa. Convém dizer o óbvio, a culpa não é dos atletas. São as grandes vítimas aliás, tratam de eliminar a criança que há neles para poderem cumprir um sonho ou ter uma vida digna.

Na última crónica no “El País”, Jorge Valdano escreveu um artigo intitulado “Una pared, un caño, un sombrero: las cosas del fútbol”. Ou seja, os encantos de uma tabela – nunca esquecerei quando, com oito ou nove anos, passei a bola a um amigo e ele falhou nela, sendo que a voltei a ter depois de tocada por aquele aquele pedaço de madeira colado ao chão, abençoada descoberta –, de uma cueca ou de um cabrito. Arte. Uma arte que angustia as entranhas do mister tradicional, filho da ordem e da utilidade, e que vai caindo como caem os botões frouxos, como diria Leila Guerriero, da alma dos futebolistas.

A nova “invenção de Morel” do futebol, virtuosa e repetitiva tal como na obra de Bioy Casares, é o desconto de tempo graças à oportuna lesão do guarda-redes. Nesses minutos, o treinador trata de afinar a maquinaria e explicar o que está a acontecer, afinal os jogadores jogam um jogo que não entendem e sabe-se lá o que aconteceria se não tivessem essa orientação majestosa. Há sempre uma invenção nova, uma imitação qualquer, uma indicação que confere relevância. Já não há futebol de rua, dizem. Experimente-se não dar ordens e indicações às raparigas e aos rapazes nas academias e nas escolas. A rua é a ausência de regras, o labirinto que faz brotar a criatividade. Será que os futebolistas jogariam como jogam se decidissem como se joga?

A morte de António Lobo Antunes permitiu a este que vos escreve descobrir duas coisas: o pouco humilde conforto da concordância com um génio e algumas entrevistas e textos do escritor. Ainda latem por aqui algumas frases de uma entrevista a Ana Sousa Dias que deu alguma docilidade ao trânsito, mas adiante, futebol e tal.

Numa das suas crónicas, Lobo Antunes lamentou a perda de humor, poesia e prazer no futebol a favor da “monotonia de repartição”. Admirava Coluna, só voltaria à Luz se Coluna regressasse. É que com aquele senhor em campo “acabavam os jogadores burocratas, funcionários, escrevendo memorandos, copiando minutas, distribuindo circulares”.

O escritor implorava por “improviso” e “génio” e culpava treinadores, dirigentes e agentes pela transformação dos jogadores em “robots previsíveis”. Eu acrescentaria que jornalistas, analistas e comentadores dão um empurrão, somos todos funcionários comprometidos com a normalização desta forma de ver o jogo, mais inflamada, com mais trincheiras e menos exigente artisticamente.

Surpreende-me sempre quando os adeptos toleram mau futebol ou um tipo de jogo que não emociona, o amor ao clube autoriza tudo e isso é compreensível. Lembro-me perfeitamente da primeira vez que saltei da cadeira num estádio, do autor enfiado numa camisola da seleção e dos comoventes malabarismos que derreteram gigantes. Se na política a previsibilidade é boa, no futebol é o princípio do fim. E o que era cultura popular antes transforma-se em mero protocolo.

Ainda estou a tentar perceber se envelhecer traz cinismo, ainda mais ignorância ou uma invulgar e implacável obsessão pela beleza. Há muito tempo que partilho com Lobo Antunes o que não sabia que partilhava, imagine-se o atrevimento: deem-me jogadores que fazem milagres e não cumpridores que executam. Zidane percebeu isso no seu mandato dourado no Real Madrid, ou não?

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