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Euro 2004: Não mudou a economia, mas as pessoas (parte 4)

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12.03.2026

Euro 2004: Não mudou a economia, mas as pessoas (parte 4)

Mário Afonso - 12/03/2026 - 9:02

Tentando descrever numa simples ideia, as memórias que a seleção de Portugal nos legou na sua caminhada para a final do Euro 2004, realizado em Portugal, esta, poderia ser: O verão em que o país vestiu a mesma camisola. As ruas encheram se de bandeiras, as janelas transformaram se em varandas patrióticas e o país viveu de braços abertos, num raro estado de comunhão nacional. A caminhada da seleção até à final do Euro 2004 criou uma memória coletiva luminosa: bares e esplanadas apinhados, gritos de entusiasmo, abraços entre desconhecidos e uma celebração que resistiu até à noite amarga em que a Grécia se tornou campeã. Perdeu se o título, mas ganhou se um daqueles momentos que ficam para sempre guardados na gaveta das grandes emoções nacionais. Mas, como tantas vezes acontece, a história tem um outro lado. E é esse lado que, duas décadas depois, continua a pesar. A euforia passou, a fatura ficou. Um legado que custou caro. Os relatórios e análises produzidos ao longo dos últimos vinte anos são claros: o Euro 2004 foi um sucesso organizativo e um triunfo emocional, mas deixou um rasto económico difícil de ignorar. O país investiu milhões em estádios e infraestruturas que, em vários casos, nunca encontraram um uso sustentável. Leiria, Aveiro, Algarve e até Braga — com o seu icónico estádio escavado na rocha, mas 180% acima do orçamento inicial — tornaram se símbolos de ambição desmedida e de um certo “mal português”: construir primeiro, pensar depois. O resultado foi a criação de verdadeiros “elefantes brancos”: equipamentos caros de manter, subutilizados e que se transformaram em fardos para autarquias já fragilizadas. Ficaram as memórias cheias, sim, mas também ficaram estádios vazios e dívidas pesadas. O que aprendemos — ou deveríamos ter aprendido? A grande lição do Euro 2004 é simples, embora nem sempre aplicada: megaeventos exigem planeamento financeiro rigoroso e uma estratégia clara para o “dia seguinte”. O retorno imediato — turismo, consumo, visibilidade — é real, mas é curto. O impacto económico dissipou se rapidamente e não resolveu nenhum dos problemas estruturais do país. Há, contudo, exemplos positivos. A Expo 98 mostrou que é possível transformar um grande evento num legado urbano e económico duradouro. O Euro 2004 mostrou que sabemos organizar; falta provar que sabemos gerir o depois. Mas reconheça-se, há o legado que não se mede em euros. Seria injusto, porém, reduzir o Euro 2004 a uma questão de contas. O torneio reforçou a autoestima nacional, projetou Portugal internacionalmente e consolidou uma imagem de competência e hospitalidade que beneficiou o turismo e a diplomacia cultural. Mais do que isso, deixou uma marca identitária profunda: durante um mês, o país acreditou em si próprio como raramente acontece. Esse talvez tenha sido o maior legado — a forma como passámos a ver nos e a forma como o mundo passou a olhar para nós. Entre a euforia e a fatura, entre o sonho e o custo, o Euro 2004 permanece como um espelho das nossas virtudes e das nossas fragilidades.


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