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Governar para indicadores ou para pessoas?

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15.04.2026

Quando falamos do futuro da Madeira, não podemos permitir que a discussão se perca em frases sonoras que parecem densas, mas que, no fundo, pouco dizem sobre o que as pessoas enfrentam todos os dias. O essencial começa na vida de quem acorda cedo para trabalhar, de quem faz contas ao fim do mês, de quem percebe que o esforço individual já não é suficiente para garantir autonomia.

A crise da habitação não é um conceito técnico nem um gráfico apresentado numa conferência. É o jovem que recebe 900 ou 1000 euros e rapidamente conclui que um T1 no Funchal absorve quase todo o salário, é o casal que adia a decisão de constituir família porque continua num quarto emprestado, são famílias que lidam com aumentos sucessivos de renda enquanto a progressão salarial permanece lenta e incerta. Este desfasamento persistente entre o valor do trabalho e o custo de uma casa tornou-se estrutural e está a moldar silenciosamente as escolhas de uma geração inteira.

Os números apenas confirmam aquilo que já se percebe nas conversas à mesa, nos desabafos entre amigos e nas decisões que vão sendo adiadas sem data para acontecer. No final de 2024, o preço mediano das casas vendidas na região rondava os 2395 euros por metro quadrado, colocando a Madeira entre as zonas mais caras do país, e em 2025 as avaliações bancárias continuaram acima dos 2300 euros por metro quadrado, com aumentos superiores a 17 por cento face ao ano anterior. Traduzido para a vida real, isto significa que um apartamento com 100 metros quadrados ultrapassa facilmente os 230 mil euros, um valor que está muito longe do alcance de quem vive apenas do seu salário.

Perante este cenário, muitas famílias não fazem grandes planos, fazem contas. Há quem permaneça em casa dos pais muito depois da idade em que gostaria de sair, quem partilhe casa sem condições adequadas porque é a única forma de dividir despesas, quem aceite percursos diários longos e desgastantes porque mais perto simplesmente não é possível pagar. Não são escolhas livres, são adaptações forçadas. E quando quase uma em cada cinco pessoas vive em situação de sobrelotação, não estamos apenas perante um problema estatístico, estamos perante casas cheias demais, falta de privacidade, desgaste emocional e uma pressão constante que se acumula em silêncio.

Importa ainda reconhecer a especificidade territorial da Madeira, que não é um detalhe secundário mas um dado determinante. Trata-se de uma ilha com limitações físicas evidentes, onde o solo disponível é um recurso escasso e estratégico e onde cada decisão urbanística assume um impacto muito superior ao que teria num território expansível. Classificar um lote, aprovar um projeto, definir índices de construção ou alterar parâmetros de densidade não são meros atos administrativos, são opções que determinam quem pode residir em determinadas zonas, em que condições e com que grau de estabilidade, influenciando o próprio modelo de desenvolvimento económico e social que se pretende consolidar. Quando o espaço é limitado, cada escolha pesa mais e cada omissão também.

Nos últimos anos, a orientação dominante do mercado tem privilegiado segmentos de maior capacidade financeira, com empreendimentos direcionados para investimento externo e patamares de luxo que procuram posicionar a região num circuito internacional de valorização imobiliária.

O famoso empreendimento “Dubai Madeira” não surge por acaso, traduz simbolicamente uma visão de afirmação económica assente na captação de capital e na valorização rápida do metro quadrado. Do ponto de vista empresarial, esta lógica é compreensível, porque a rentabilidade é um critério central de decisão. O problema instala-se quando essa lógica deixa de coexistir com soluções acessíveis e passa a estruturar o sentido dominante da oferta, provocando uma escalada de preços que se repercute não apenas no produto final, mas também no valor do solo e nas expectativas de ganhos futuros, afastando progressivamente do mercado quem procura apenas uma casa para viver e não um ativo para investir.

É neste contexto que a responsabilidade política se torna incontornável, porque o poder público não existe para observar tendências de forma passiva, mas para definir balizas, criar incentivos diferenciados e corrigir desequilíbrios que o mercado, por si só, não resolve. Disponibilizar solo público para construção a custos controlados, exigir integração de habitação acessível em projetos de maior dimensão ou regular o alojamento local nas zonas de maior pressão não constitui uma interferência ideológica, mas um exercício legítimo de governação num território onde a escassez amplifica os efeitos de qualquer decisão. Não agir também é uma escolha e, quando os instrumentos de política pública existem mas não são utilizados, o resultado prático é permitir que a especulação se consolide como eixo estruturante do desenvolvimento regional.

Defender uma intervenção mais consistente não significa substituir a iniciativa privada por burocracia nem transformar o Estado em promotor exclusivo, significa assumir que planeamento estratégico, metas quantificáveis e avaliação transparente são condições mínimas para equilibrar interesse particular e interesse coletivo. Tratar a habitação como pilar da coesão social e da sustentabilidade demográfica implica definir objetivos claros quanto ao número anual de fogos acessíveis, à percentagem de solo público afeta a esse fim e aos critérios objetivos que orientam a sua atribuição, garantindo continuidade e previsibilidade em vez de anúncios dispersos que raramente alteram a trajetória.

No fundo, a escolha que se coloca é exigente mas clara: ou medimos o sucesso pelo preço atingido por metro quadrado, aceitando que muitos ficarão pelo caminho, ou assumimos que o crescimento económico só é verdadeiramente sustentável quando permite às novas gerações de trabalhadores madeirenses permanecer na ilha com dignidade, estabilidade e perspetiva de futuro.


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