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A terceira era da exploração espacial tripulada

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Três anos e meio volvidos desde a Ártemis I, e mais de 15 anos após o início do desenvolvimento da cápsula Órion e do foguetão pesado SLS, chegou o momento em que a geração pós-Apolo assiste a uma missão tripulada além da órbita terrestre.

Para quem cresceu num tempo em que o fascínio pelo sector espacial foi comandado pela exploração robótica, e em que a presença humana se cingiu à órbita terrestre (excepto em Hollywood), a missão Ártemis II representa antes de mais um regresso ao futuro: é que jamais aceitámos que os anos 1960 tivessem sido o auge da exploração em vez do seu prólogo.

Liderada desde os anos 1960 pelos Estados Unidos da América, a exploração espacial tripulada divide-se em três eras (parcialmente sobrepostas). A primeira iniciou-se com o anúncio em 1962 do Presidente Kennedy de que os EUA iriam enviar homens à Lua e trazê-los de volta a salvo até ao final dessa década. A segunda decorreu desde a decisão do Presidente Nixon em 1972 de construir um vaivém espacial até ao seu último voo, em 2011 (embora o seu legado persista na Estação Espacial Internacional). A terceira está em gestação desde que em 2004 o Presidente George W. Bush redesignou a Lua como principal objectivo de exploração, e que a missão Ártemis finalmente concretiza.

Com base nos últimos 22 anos, esta terceira fase de exploração foi até agora um desperdício de recursos e de tempo. As empresas que concretizaram o programa Apolo e os vaivéns espaciais mostraram-se incapazes de repetir, 40 anos depois, o mesmo sucesso com o programa Constellation, posteriormente renomeado Ártemis.

A intensa interferência política – que levou até ao cognome de “Senate Launch System” para o SLS, com destaque para a acção do senador Richard Shelby, do Alabama – e o descontrolo nos custos e prazos à boleia de contratos não dependentes de objectivos levaram a uma cápsula Órion que só fará o seu primeiro voo tripulado 20 anos depois, a um foguetão que não permite chegar sequer a uma órbita lunar baixa e ao descartar progressivo, em cada missão Ártemis, de todos os motores reutilizáveis construídos para os vaivéns espaciais.

No entanto, e durante o mesmo período, a NASA não esteve paralisada: ajudou também a criar uma outra base industrial, esta com contratos por objectivos, partilha de riscos com os privados, e sempre com redundância entre veículos.

Como resultado destes programas (subfinanciados pelo Congresso), com um orçamento muito inferior ao do sistema SLS/Órion, temos dois foguetões, dois sistemas de transporte de carga, dois sistemas de transporte tripulados, com dois módulos de aterragem lunar em desenvolvimento. Dois foguetões comerciais equivalentes ao SLS estão hoje em testes.

E, como se não fosse suficiente, em 2018 a agência espacial NASA lançou ainda um dos programas mais arriscados e com maior potencial da sua história, o CLPS (serviços comerciais de transporte de carga lunar), que só por si já atribuiu 11 contratos a quatro startups diferentes com o objectivo de levar experiências científicas e testes de tecnologia para a superfície da Lua – tudo isto admitindo à partida uma taxa de sucesso de 50% ou até inferior.

Era por isso inevitável que, mais tarde ou mais cedo, houvesse uma reconciliação da “Visão para a Exploração Espacial” de 2004 com a realidade e as capacidades actuais. Algo que veio a acontecer já em 2026: num exercício de optimização de recursos, a NASA reformulou agora vários dos seus programas e fez convergir esforços para a construção de uma base lunar. Assim, o foguetão SLS será substituído por veículos comerciais, módulos da estação orbital Gateway serão redireccionados para a superfície lunar, o programa CLPS passará a garantir suporte logístico para a base, e os parceiros internacionais construirão rovers (Japão e Canadá) e os módulos Argonauta (as primeiras tentativas de alunagem da Europa, a partir de 2030). Tudo ou quase tudo ao serviço de um todo, dentro do orçamento e como parte dos programas já existentes – e com o apoio do Congresso bem encaminhado.

Reconhecendo os desafios que persistem até à primeira alunagem (Ártemis IV), e daí em diante à medida que forem sendo estabelecidas as infra-estruturas na superfície lunar, podemos dizer que a terceira fase da exploração espacial tripulada parece estar, finalmente, em marcha.

É por isso que hoje, nem que seja por um momento, temos motivos para comemorar o presente e o (novo) futuro. Ad astra!, ou “até às estrelas”, lema que encarna o espírito da exploração espacial.​


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