O país onde matar ainda se chama equilíbrio
Há uma frase que devia fazer parar qualquer país que ainda se leve a sério em matéria de ciência, biodiversidade e ética pública: "Temos, no fundo, javalis a mais e caçadores a menos."
A frase é do ministro da Agricultura e Pescas, José Manuel Fernandes, numa intervenção parlamentar depois divulgada nas suas redes sociais. No mesmo vídeo, defende que promover a caça será importante para o "equilíbrio" do território. Não é uma frase lateral. É a síntese perfeita de um modo antigo de governar: perante um problema ecológico complexo, responde-se com morte; perante a necessidade de conhecimento técnico, oferece-se convicção; perante alternativas não letais, ri-se da própria ignorância.
O problema não é apenas a caça. É a facilidade com que se chama "equilíbrio" ao que, muitas vezes, é apenas uma autorização legal para matar. É a ligeireza com que se invoca a biodiversidade para justificar práticas que não nascem da necessidade alimentar de uma população, mas de uma actividade lúdica organizada, onde matar animais continua a ser apresentado como gestão, tradição ou serviço público.
A gestão dos javalis é complexa. Há impactos agrícolas, riscos rodoviários, questões sanitárias e conflitos com populações humanas. Mas a complexidade exige ciência, não slogans de taberna. O javali chegou a ser considerado quase extinto em Portugal no final da década de 1960, num contexto marcado pela peste suína africana e pela sobre-caça, tendo depois recuperado e expandido a sua distribuição. A nível europeu, a literatura científica aponta para a influência humana em translocações,........
