O uso ideológico da religião para legitimar uma ordem pós-liberal e antidemocrática?
Uma nova ideologia socio-religiosa e político-económica parece querer implantar-se no Ocidente, ilustrada sob a ação errática da figura megalómana e egocêntrica do “cristão” D. Trump. Referimo-nos às teses pós-liberais proclamadas pelo vice-presidente católico J.D. Vance, para quem o liberalismo moderno esgotou a sua capacidade de promover o bem comum e, por isso, deve ser substituído por uma ordem política mais vincadamente assente em valores morais, religiosos e comunitários. Este “político messiânico” critica o liberalismo clássico e o mercado sem controlo rigoroso, defendendo a primazia do bem comum sobre a autonomia individual e do nacionalismo sobre o pluralismo. No seu entender, a política não deve apenas garantir direitos individuais, mas orientar-se por uma visão moral da sociedade e do bem comum que, em última instância, pode exigir a prática de uma “guerra justa”, tal como defende no caso da intervenção no Irão, insurgindo-se contras as recentes posições públicas do atual Papa Leão XIV.
Para tal, J.D. Vance serve-se de um certo ideário religioso católico para se opor à secularização e à suposta decadência cultural assente na fé privada, na liberdade de consciência e na liberdade de expressão e de manifestação religiosa. Apresenta-se hostil à imigração e ao cosmopolitismo, dando ênfase ao reforço de fronteiras, à coesão cultural e à hierarquia de obrigações (família, comunidade, nação), por oposição ao universalismo liberal e ao multiculturalismo. Uma retórica pós-liberal que opõe o “povo comum” às elites tecnocráticas, académicas e mediáticas. Que exibe uma afinidade com o integralismo católico de raiz monárquica e imperial, no sentido de que a ordem política deve estar mais subordinada aos dogmas da moral cristã e aos seus princípios teológicos, por oposição ao dinamismo secular da separação entre o poder político (Estado) e o poder espiritual (Igreja), o governo partidário e o tribunal constitucional, o qual se consolidara no Ocidente na segunda metade do século XX após o fim das ditaduras coloniais.
Podemos reconhecer nestas teses uma tentativa de reformular a democracia em bases mais moralizantes, nacionalistas e culturalmente conservadoras, com........
