O corpo antes da palavra: migração, gesto e política do pertencimento
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Entrei no número 150 da Rua dos Fanqueiros, em Lisboa, como quem atravessa mais que uma porta. O edifício, na Baixa Pombalina, erguida entre o final do século XVIII e o início do XIX, mantém as fachadas regulares, o pé-direito alto, os tetos restaurados e a proporção clássica que organizou a cidade após o terremoto. Há ali uma ideia de ordem, de racionalidade urbana, de reconstrução estratégica do espaço.
No primeiro piso, a sala ampla revestida por um linóleo branco parecia suspensa no tempo. O eco devolvia cada respiração. Sob o branco liso, o assoalho antigo estalava discretamente, como se lembrasse que há sempre uma camada anterior sustentando o presente. Ao fundo, a música surgia quase invisível anunciando a chegada da primavera. Foi ali que compreendi que o silêncio não é ausência — é estrutura. E que ocupar aquele espaço era também ocupar a........
