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Assédios nas artes

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04.04.2026

Os artigos da equipa do PÚBLICO Brasil são escritos na variante da língua portuguesa usada no Brasil.Acesso gratuito: descarregue a aplicação PÚBLICO Brasil em Android ou iOS.

Ele era um dos mais importantes diretores de teatro no Brasil. Fazia sentido, então, insistir em entrevistá-lo, pois voltara a falar com jornalistas, depois de muitos anos. No teatro, após uma apresentação em que ele também estava na plateia, tomei fôlego e fui fazer-lhe o convite. Sua resposta, sorridente, foi inesperada: olhou ao lado e me perguntou quem era ela. Apresentei-lhe Patrícia, com quem sou casado e editora comigo na Antro Positivo. Então, veio a contraproposta: se ela for à minha casa sozinha, eu dou a ela a entrevista. A conversa terminou nesse exato momento. Nunca o entrevistei, apesar de outros artistas questionarem como não havia na revista uma conversa com ele. Segui, isso sim, a escrever críticas sobre suas encenações; brigamos e nos entendemos, sempre limitados às funções de artista e crítico.

Seu jeito não era exatamente novidade. Muitos sabiam, muitos até assistiram-no assediar sexualmente atrizes jovens e, moralmente, quase todo mundo durante os ensaios. Denúncias surgiam de tempos em tempos, mas ele seguiu protegido pela instituição que o abrigava, silenciosa, e, de modo incompreensível, também por diversos atores e atrizes que sofreram ou testemunharam os assédios.

Sua ruína emocional não veio com as denúncias mais enfáticas pelas redes sociais, e sim com o impacto na arte do movimento Me Too. Chegávamos a outra época. Os comportamentos abusivos passavam à exposição pública; algumas vítimas perdiam o medo de retaliações; denunciados eram cancelados e até presos. Ele, recolhido ao seu apartamento, em contato com poucos, permaneceu diante do tormento de suas memórias.

Se sentiu remorso ou culpa, não é possível saber. Dizem ter se entregado à própria melancolia e, mergulhado nela, afundado até o fim. Muitos lamentaram. Muitos intensificaram fortemente as denúncias, sem pudor. Foi um grande artista, é verdade. Assim como foi um homem horrível.

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Antes desse momento derradeiro, alguém de dentro me sugeriu entrar para sua companhia como jovem dramaturgo iniciante. Questionei sobre a prática dele gritar e humilhar as pessoas com quem trabalhava, às vezes durante horas, como ouvia por aí. Sim, ele faz isso mesmo. E eu poderei reagir, contra-argumentar? Não com ele, avisou-me. Então, comigo não dará certo, e declinei o convite.

Submeter-me ao assédio teria aberto todas as portas para um caminho que começava solto e sem suporte algum; teria sido assumido como discípulo pela instituição e, talvez, até hoje, lá estivesse; teria acesso e respeito prévio de parte da crítica especializada; teria notoriedade na ambiência artística. Aos olhos do mundo, eu cometia um erro. Aos meus, dormiria em paz.

É praticamente impossível encontrar, nas artes performativas mundo afora, quem não possua histórias de assédio próprias ou de terceiros para contar, e em muitos níveis, inclusive nos que........

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