Respeitar o Chega: isto não é um paradoxo?
Pedem-me para tolerar o Chega, mas o Chega não me tolera de volta.
Nas discussões com amigos, colegas e familiares sobre o respeito por quem vota no Chega — incluindo os seus eleitores — a minha posição tem sido consistente: respeito as pessoas, dialogo com os seus votantes e reconheço a legitimidade do seu voto, mas não consigo respeitar o partido. A resposta habitual é a de que, em democracia, o respeito deve ser universal. No entanto, como é que posso respeitar um partido que não me respeita a mim nem aos outros?
Nas aulas de Filosofia do ensino secundário abordei o paradoxo formulado por Karl Popper: não se pode tolerar o intolerável, sob pena da própria tolerância desaparecer (Paradoxo da Tolerância). Esta ideia mantém-se atual. O Chega configura-se como um partido de extrema-direita — independentemente das tentativas de o negar — cuja atuação colide com princípios fundamentais de tolerância e respeito. O seu discurso dirige-se frequentemente contra pessoas LGBTQ+, imigrantes, mulheres e até contra o conhecimento científico.
No plano dos direitos das mulheres, o partido defendeu propostas como a obrigatoriedade das grávidas ouvirem o batimento cardíaco do feto antes da interrupção voluntária da gravidez. Mais grave ainda, alguns militantes chegaram a defender, num congresso, a retirada dos ovários a mulheres que realizassem um aborto. Acresce a posição de dirigentes como a de Rita Matias, que afirma que o aborto não deve ser permitido nem sequer em casos de violação.
Relativamente às pessoas LGBTQ+, o partido tem assumido posições igualmente preocupantes. Aprovou propostas, juntamente com o PSD e CDS, que restringiram direitos das pessoas transgénero, nomeadamente no que respeita à alteração do nome no registo civil. Votou também contra a criminalização das chamadas “terapias de conversão”.
No domínio da imigração, o partido liderado por André Ventura tem sido associado à disseminação de desinformação, sendo responsável por mais de 80% dos casos, especialmente neste tópico. Simultaneamente, votou contra medidas de combate à desinformação propostas por outros partidos.
Assim, custa acreditar em André Ventura quando este diz que pretende “limpar Portugal”, pois em termos probabilísticos o mais provável é que seja falso.
O discurso anti-imigração traduz-se em propostas como a “remigração” de imigrantes legais ou a proibição de entrada de pessoas provenientes de determinadas regiões do mundo, como o Médio Oriente, excluindo, de forma curiosa, países aliados como Israel.
Esta retórica ignora, contudo, a realidade económica portuguesa. Setores essenciais — como a agricultura, os cuidados à população idosa e a construção civil — dependem fortemente de mão-de-obra imigrante. Sem estes trabalhadores, a economia enfrentaria sérias dificuldades, podendo mesmo entrar em colapso. Numa situação de quase pleno emprego, a sua substituição implicaria custos elevados para os contribuintes com aumento abruto de impostos e agravaria problemas estruturais como a crise habitacional. Quem cuidaria dos idosos? Quem trabalharia na agricultura? Quem construiria as casas de que o país necessita?
Como consequência, este discurso anti-imigração inflamado de desinformação do Chega pode estar diretamente relacionado com o aumento do número de casos de incitamento ao ódio descritos no RASI de 2025 e cujo aumento se vem a observar precisamente desde 2019, ano em que o Chega entrou no Parlamento.
A atuação do partido não se limita a minorias. No plano laboral, inicialmente este partido foi contra a greve geral por causa da nova reforma laboral do Governo, com medidas como limites ao direito à amamentação, eliminação da falta por luto gestacional, reintrodução do banco de horas individual, dificuldades na reinserção após despedimentos coletivos e restrições ao teletrabalho.
No entanto, perante a sua impopularidade, alterou a sua posição. Esta mudança levanta uma questão legítima: será que outras propostas — como o alargamento do Dia da Defesa Nacional para uma semana — terão o mesmo destino? Estaremos perante um partido que adapta o discurso em função da popularidade, dizendo, por vezes, tudo e o seu contrário?
A relação com a comunicação social revela outra contradição. Apesar de a criticar frequentemente, André Ventura é um dos líderes partidários mais entrevistados, beneficiando de ampla exposição mediática, mesmo quando acusa os media de parcialidade.
No plano da justiça, parece criticar investigações apenas quando envolvem figuras do Chega, como no caso de Albufeira; ao mesmo tempo, o partido inclui membros acusados ou suspeitos de crimes graves, incluindo pedofilia, alguns dos quais permanecem ainda em funções, como Pedro Pessanha.
Por outras palavras, pretende uma investigação constante para evitar a corrupção, exceto quando dirigentes do seu partido estão envolvidos, criticando duramente a comunicação social quando o desfavorece, ao mesmo tempo que se aproveita da exposição mediática que esta lhe confere.
Além dos deputados, militantes e dirigentes do seu partido, existem curiosamente outras figuras que escapam aos ataques do Chega e André Ventura. No plano internacional, destacam-se aliados como Donald Trump, Marine Le Pen e Viktor Orbán, associados a processos por desvio de fundos europeus, corrupção ou abuso de poder, e suspeitas de pedofilia como as encontradas nos ficheiros Epstein.
Simultaneamente, estas alianças coexistem com um discurso de combate à corrupção e defesa do interesse nacional. A contradição é evidente: enquanto se promete “limpar Portugal”, estabelecem-se proximidades com figuras envolvidas em polémicas semelhantes.
O apoio é, por vezes, de tal forma ideologicamente cego que as posições parecem sobrepor-se à defesa de princípios básicos de humanidade. Um exemplo claro é quando o Chega se absteve na condenação do ataque dos EUA a uma escola de meninas no Irão que vitimou centenas de alunas.
Persistem ainda questões relacionadas com a transparência e integridade do próprio partido. O Chega tem sido associado à pretensão do regresso à ditadura de Salazar, centralização de mais poderes numa pessoa (Presidente) e polícia (como acontecia com a PIDE) ameaçando inclusive os deputados de que esta será a última legislatura da atual República. Adicionalmente, o partido não possui as suas listas de Congresso legais, teima em não divulgar as listas eleitorais para evitar escrutínio público, possui um financiamento pouco claro e contém ligações diretas (deputados e assessores parlamentares) a grupos violentos, neonazis e supremacistas, como o 1143 e o Reconquista [48-53], cujas posições incluem ataques a mulheres (que não devem poder votar segundo os mesmos), imigrantes e pessoas LGBTQ+, e diretamente envolvidos nos ataques ao ator d’A Barraca e confrontos diretos no 25 de abril.
Perante estes factos, não posso respeitar um partido cuja atuação demonstra, de forma consistente, falta de respeito pelos outros. A intolerância não começa com quem quem a critica; começa com quem a pratica.
Respeito as pessoas e compreendo o voto de protesto de quem não vê os seus problemas resolvidos. No entanto, o argumento de que “são sempre os mesmos [PS/PSD]” perde força num sistema com múltiplas alternativas políticas, muitas das quais também começaram com uma representação reduzida.
A história demonstra que a erosão democrática não ocorre de forma abruta, mas através da normalização progressiva da intolerância. Foi assim que regimes autoritários como o Nazi ascenderam ao poder. Não devemos repetir este erro e não devemos romper com o “não é não” cuja corda tem sido constantemente quebrada, ouvindo-se posteriormente “isto é a democracia a funcionar”.
Como diz a expressão popular, “quem quer respeito, dá-se ao respeito”. O Chega exige respeito, mas não o dá, e o respeito, numa democracia, deve ser bidirecional. Ora, torna-se francamente difícil manter um diálogo calmo e democrático com um deputado do Chega que parta para o insulto após discordar do seu partido ser de extrema-direita, quando pedem a deputadas para voltarem para a sua terra, quando enviam beijos para outras deputadas ou quando fazem mugidos quando uma deputada fala. Fazem perder a esperança num diálogo eloquente, justo e respeitador. É francamente condenável.
