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Pensionistas deste país, “vão trabalhar” — e isto não é sobre reformados

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02.04.2026

Imagina que milhares de reformados, descontentes com as pensões miseráveis que recebem e com as condições de vida precárias a que estão sujeitos, saíam à rua para, pela enésima vez e sem que as anteriores tenham surtido grande efeito, se manifestarem para exigir melhores condições de vida. Que reação te suscitaria este protesto?

Suponho que o português-médio, não obstante poder discordar aqui e ali de algumas reivindicações, ou sentir-se de pé atrás em relação a alguma da cacofonia que sempre se encontra neste tipo de iniciativas, seria solidário para com a luta dos pensionistas. Afinal de contas, são pretensões justas. Parece-nos inconcebível (e bem) que alguém tolere uma sociedade que ignora as dificuldades dos seus mais velhos e que não lhes dá meios para que vivam com dignidade - ou, no prisma da eficiência, que não lhes dá meios para que, até à reforma, os seus sacrifícios vão sendo justificados com a promessa de uma proteção futura.

Pois então… nada disso! Neste multiverso (cuja premissa nem sequer é distópica: quantas manifestações já não houve de pensionistas a exigir ao Estado que cumpra com certas pretensões suas?), uma maioria ruidosa ergue-se perante os próprios pais e avós e diz, reprovando-os: “Querem tudo dado”; “Ando eu a levantar-me às 5h da manhã para pagar os medicamentos deles?”; “Gastam o dinheiro todo em raspadinhas e depois queixam-se”. Sucintamente: “Vão trabalhar!”.

Já deves ter percebido onde quero chegar. Até porque estas não são frases da minha cabeça: são, com óbvias adaptações, comentários verdadeiros de pessoas às manifestações dos estudantes. Infelizmente, são comentários que refletem a mentalidade de parte muito significativa dos portugueses a qualquer reivindicação dos alunos universitários.

Desde a crise na habitação, que sufoca financeiramente as famílias dos alunos deslocados com rendas exorbitantes, passando pela insuficiência de bolsas e de apoios sociais, que não chegam para ajudar os alunos mais cadenciados, e culminando com a intenção do Governo em descongelar o valor das propinas, que em tempos chegou a ultrapassar os 1000 euros, são muitas as dificuldades que o nosso ensino superior enfrenta e por isso várias as lutas que os alunos têm que travar para que, tranquilamente e sem obstáculos, possam fazer que aparentemente é demasiado ousado: estudar.

Uma sociedade que entende como injustas as pretensões mais básicas e fundamentais daqueles que um dia a irão sustentar, desenvolver e governar é uma sociedade corroída por um individualismo cego e, por isso, profundamente disfuncional e moralmente quase-falida. Menorizar o sofrimento dos estudantes é desestruturar os pilares da justiça intergeracional… na exata medida em que também o seria perante as dificuldades dos mais idosos. Em ambos os casos, trata-se de um discurso absurdo, que deveria repugnar o sentido de justiça de qualquer um.

Até porque, e concluindo num tom provocatório: quem é que aqueles que hoje dizem aos jovens para pararem de se queixar pensam que um dia lhes vão pagar as reformas? Atentar contra os interesses dos estudantes é perpetuar a precariedade e a subqualificação dos nossos jovens, logo, é perpetuar a pobreza. Ora, havendo pobreza, há menos dinheiro nos cofres do Estado para, entre outras coisas… financiar a segurança social.

É que é aí que reside o problema estrutural deste discurso: ao dar luz verde ao poder político para desinvestir na educação - que, comprovadamente, é dos investimentos que mais retorno económico, social e cultural garante a um país - não se está apenas a ser cruel: está-se a ser, sobretudo, masoquista. Por isso, a luta dos estudantes é a luta de todos. Mesmo daqueles que hoje os querem calar.


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