Anozero, as artes em Coimbra
O PÚBLICO noticiou com adequado destaque a inauguração da Bienal Anozero, anunciada com uma “Marcha pela Paz”, idealizada e dirigida pelo artista Vasco Araújo: duas centenas de pessoas, vestidas de branco e entoando o Coro dos escravos da ópera Nabucco, de Verdi, desfilaram entre o Largo de Santa Cruz e o Convento de Santa Clara-a-Nova. Ao longo do percurso de dois quilómetros, mais gente que previamente não se inscrevera nem ensaiara juntou-se ao cortejo. Foi um arranque forte da Bienal que este ano, na sua 6.ª edição, comissariada por dois canadianos (Hans Ibelings, John Zeppetelli), tem como lema “Segurar, dar, receber”, assim assumindo a marca deste notável evento: a arte existe para a comunidade, numa partilha que a matura e frutifica.
Das exposições que consegui visitar durante o fim-de-semana festivo da sua inauguração, destaco (tal como fiz nas edições anteriores) as que decorrem em Santa Clara. Muito especialmente, logo à entrada, a instalação de Taryn Simon, que, em absoluta escuridão, nos faz ouvir, ao longo de um corredor de duzentos metros, os cânticos de carpideiras/os de quinze culturas diferentes, da China ou Azerbaijão. As vozes chorosas ecoam sob a abóbada seiscentista com uma amplitude esmagadora e pungente. Mais adiante, no mesmo piso térreo, entramos na peça de Rui Chafes envolvida na música dos Candura, numa sala quase inteiramente escurecida. Depois de ambientados, mas transidos, o olhar ergue-se sobre a grande asa de ferro suspensa da abóbada alta que parece adejar sob a cascata de som. Nos dois casos (a instalação sonora e a escultura encenada em música), o sentimento que nos invade é o sublime, na dimensão com que a estética romântica o definiu nos finais do século XVIII.
Mas é indispensável percorrer os dois andares do ex-convento das clarissas, e sair para os anexos, visitar a cisterna e a capela para absorver outras notáveis peças (fundamentalmente escultura, vídeo, fotografia e arquitecturas, mas também os belos desenhos de Adriana Molder) que abrem o mundo e as questões do nosso tempo no campo inesgotável dos fazeres artísticos. Dos vários núcleos dispersos pela cidade, detive-me na Sala da Cidade (antigo refeitório do Convento de Santa Cruz) conquistada pelo magnífico diaporama em vídeo de Nan Goldin, intitulado Síndrome de Stendhal: uma sucessão encantatória de pinturas e esculturas dos grandes museus da Europa, geradoras da catadupa de emoções que, em Florença, terão levado Stendhal ao desmaio. A artista distancia o fogo da beleza, mesclando, entre as obras de arte canónicas, retratos em pose dos seus amigos, montando uma comunidade de atitudes e sentimentos entre vida e eternidade: os interstícios mais secretos de um "museu imaginário".
Mas a festa que uma grande bienal sempre constitui é um dispositivo de descoberta e de sucessivas marcações que cada um deve percorrer e elaborar. Por isso, prefiro passar a questões gerais. A primeira diz respeito ao modelo: hoje, como em 2015, quando se realizou pela primeira vez, a Anozero resulta de uma parceria entre o CAPC (Círculo de Artes Plásticas de Coimbra, dirigido por Carlos Antunes), a Universidade de Coimbra e a câmara municipal da cidade que são garantes de representatividade institucional e cívica. Esta aliança vem gerando uma crescente diversidade de meios e de financiamentos externos que, em 2026, permitiram delinear os oito núcleos expositivos e um consistente programa “Convergente” que envolve quase todas as instituições de educação e cultura de Coimbra. Este modelo original assenta num entendimento da arte como campo alargado não só de produção, mas de partilha e recriação, sobre um projecto autoral que, necessariamente, pertence ao CAPC.
A segunda questão diz respeito à dimensão utópica de Anozero. Aqui, a utopia não é um lugar inexistente ou definitivamente perdido, mas um sítio potente, uma heterotopia, para usar o conceito de Michel Foucault: um lugar outro que confronta e fecunda a existência quotidiana. Neste caso, a heterotopia é o Convento de Santa Clara. Disse-me Carlos Antunes que “a ligação entre o mosteiro e as propostas curatoriais é cada vez mais incontornável, numa relação simbólica que é parte substancial desta bienal, a sua galinha dos ovos de ouro”. Por isso, entre outras intervenções mais ou menos subtis, os curadores resolveram instalar dois quartos que são espaços expositivos mas podem acolher visitantes, concluindo: “O que mais me seduz é a possibilidade de recuperar a dimensão hospitaleira dos mosteiros que sempre foram programaticamente lugares de alojar comunidades religiosas e albergar visitantes, viajantes, peregrinos através de uma ética de cuidado de matriz religiosa. Neste mosteiro, a religião e a disciplina militar foram substituídas pela arte e parece-nos muito oportuno que possamos continuar a receber visitantes numa proporcionalidade que está nos antípodas de qualquer ideia de hotel.”
O meu amigo Rui Lobo, professor no curso de Arquitectura do Colégio das Artes, disse-o de outra maneira, igualmente indiscutível e mais pragmático: “Há muito espaço para a construção de um hotel associado ao mosteiro — mas o antigo edifício monástico (refeitório, corredores, celas, torres) deve continuar a ser o espaço da bienal.”
Este é o grande desafio para a cidade, para o Governo e para todos nós: garantir que a Bienal de Coimbra continuará a ter o seu coração naquela que é uma das mais qualificadas arquitecturas do “estilo chão” da cultura arquitectónica portuguesa e corpo de imaginabilidade urbana constitutiva da própria cidade. Arquitectura que é arte e que potencia todas as práticas artísticas ali instaladas, abrindo-se à fruição dos visitantes com tal arrojo que cada um de nós se sente membro de uma comunidade performativa artística e democrática. Por isso, alerto os distraídos: Anozero é a centralidade da arte em Portugal até 4 de Julho.
