Querido Líder
O século XXI descobriu finalmente a sua ideologia dominante: o elogio preventivo. Já não basta obedecer ao poder. É preciso antecipar-lhe os desejos, confirmar-lhe a grandeza e assegurar, todos os dias, que a História começou no exato momento em que o Querido Líder entrou na sala. O autoritarismo clássico exigia silêncio. O novo exige entusiasmo.
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As reuniões de gabinete de Donald Trump parecem produzidas por um realizador norte-coreano com orçamento da Fox News. À volta da mesa, secretários competem numa modalidade política intermédia entre a oração litúrgica e a audição para uma corte absolutista. Já não apresentam políticas públicas. Apresentam hinos. O secretário da Defesa compara Trump a Lincoln. Outro garante que o Presidente transformou a Venezuela, que hoje precisa de mais ajuda do que nunca, em aliada estratégica “em 45 minutos”, como se Napoleão tivesse sido substituído por um promotor imobiliário. Cada frase é construída com o mesmo mecanismo psicológico: o líder não governa circunstâncias, transcende-as. Não toma decisões, cria realidades.
Há qualquer coisa de profundamente tragicómica em ver a maior potência do mundo aproximar-se da estética emocional de Pyongyang. Durante décadas, os americanos olharam para a Coreia do Norte como um teatro grotesco de sincronização mental: generais a chorar perante Kim Jong-un, apresentadores de televisão em estado de êxtase patriótico, multidões........
