Dez notas sobre o estado da ciência em Portugal
Uma análise da política científica deve basear-se na evidência. É difícil fazê-lo quando a nova Agência Nacional de Investigação e Inovação (AI2) demora a arrancar, a nova Lei da Ciência e Inovação não é completamente divulgada (embora esteja já para promulgação pelo Presidente da República) ou do Orçamento do Estado apenas se conhecem alguns aspetos, e nem é claro como (e se) vão ser cumpridos calendários e compromissos anteriores. O que motiva algumas reflexões.
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Nos tempos que correm qualquer pretexto parece bom para criticar a política científica nacional e as opções que se estão (ou não estão) a tomar. São muitas alterações, polémicas e profundas, que potencialmente mudam o paradigma em termos daquilo que se valoriza. É crucial ouvir e entender essas críticas. É sobretudo importante ter uma estratégia coerente, avaliar o impacto do que quer que se decida fazer, e corrigir constantemente os erros. Porque se vão cometer erros. Isso (também) é ciência.
Por muito que discorde da tutela, a comunidade científica nunca se vai revoltar a sério. Por vários motivos. A) Se o fizesse, pouca gente daria conta. B) Não há uma só comunidade; a luta dos investigadores precários, por exemplo, não é a dos que não o são. C) Potencialmente seria fácil lidar com uma revolta na ciência, caso ela existisse; o edifício é frágil. D) Também por isso, cientistas participam em qualquer evento da tutela, mesmo que sintam ser de pouca utilidade, ou que estão a ser instrumentalizados. E) Muitos dirigentes não querem pôr em risco eventuais carreiras futuras, após os seus mandatos. F) Académicos em geral, mesmo mal pagos e precários, acham que a contestação é para os outros, quer por recearem as consequências, quer por genuína convicção.
A revolução do sistema científico nacional (com o seu consequente crescimento, em quantidade e qualidade) fez-se, em grande medida, contra as instituições de........
