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Viana do Castelo: Uma biografia sensorial

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05.02.2026

Clama o senhor padre, cuja voz roufenha soa bastante amplificada nos altifalantes: “Paz em Israel, paz na Faixa de Gaza, Paz na Palestina.” É grande a Igreja de São Domingos. E antiga. Quinhentos e cinquenta anos. É a primeira igreja em que entro em Viana do Castelo, que inicialmente se chamou Viana da Foz do Lima, cidade estendida entre mar e rio em terreno quase todo plano, protegido a norte pela colina de Santa Luzia.

Inspiro o ar complexo: madeira antiga, cera de vela, uma subtil nota de sabonete. Será Feno de Portugal? Ainda o pões nas gavetas, mãe? O som está demasiado alto para uma igreja. Penso em ir-me embora, mas o aconchego do aquecedor cogumelo, aqui tão perto, convence-me a ficar. Há 17 fiéis (presumo) espalhados pela nave. O senhor padre empolga-se num Pai Nosso, esganiçando a voz num arrepiante fervor religioso. Os fiéis repetem, esganiçando as vozes precisamente no ponto em que o senhor padre o havia feito. A fé dos homens. Emociono-me. A missa é um universo sonoro. Julgando tratar-se do epílogo da celebração, e já desconfortável pela rigidez do banco, levanto-me e dirijo-me à saída, às arrecuas, pelo corredor lateral.

Volto-me para a porta no instante em que se inicia uma Ave-maria. Embalado por mais um crescendo na voz do senhor padre, um homem na última fila bate as mãos abertas uma contra a outra, encostando-as à testa enrugada. Fé ou sofrimento? A palmada ecoa. Meia........

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