Um preto e um branco entram num autocarro
Que ninguém venha ao engano. O texto é sobre pretos e brancos — ou brancos e pretos, para que não me acusem de racismo pela ordem dos fatores na frase. É isto parvo? É, mas muito do que se diz e escreve sobre racismo também o é. E porquê? Porque é extremado. E porque não tem em conta que a vida em sociedade não o é. A vida em sociedade é uma miscelânea.
Andamos por aqui, os brancos e os pretos, os pretos e os brancos (vou abster-me de falar das outras cores de pele, branco e preto serve o propósito) a dar-nos bem e a dar-nos mal, a engatar-nos e a rejeitar-nos, a roubar e a ser roubados, a matar-nos e a ser mortos, enfim, a fazer aquilo que as pessoas fazem. E as pessoas podem ser boas ou más, problemáticas ou tranquilas e uma série de outras coisas, pois isto das pessoas e do que pensam e fazem é tudo menos uma ciência exata. O que há mais por aí são teorias que ignoram, seja por má-fé ou por mera incompreensão, as nuances de uma miscelânea e a natureza aleatória e imprevisível da vida.
“Olha, olha, só faltava cá este agora a escrever que o racismo não existe…”
Eu escrevi isso? Não escrevi. Não defino certezas onde só há incertezas. Há racismo, claro. Há, por exemplo, por aí, em Portugal e pelo mundo, pessoas brancas, algumas reunidas em grupos criminosos ou não, que detestam pretos e outras pessoas de cores, credos e escolhas diferentes das suas. E há também por aí, pretos, alguns reunidos em grupos criminosos ou não, que detestam brancos e outras pessoas de cores, credos e escolhas diferentes das suas. Nada disto é novidade. E o meio-termo? O meio-termo é onde a vida realmente acontece.
Deixe-me contar-lhe algumas histórias.
Cresci em Matos-Cheirinhos, uma terreola no concelho de Cascais, colada........
