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Um preto e um branco entram num autocarro

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05.03.2026

Que ninguém venha ao engano. O texto é sobre pretos e brancos — ou brancos e pretos, para que não me acusem de racismo pela ordem dos fatores na frase. É isto parvo? É, mas muito do que se diz e escreve sobre racismo também o é. E porquê? Porque é extremado. E porque não tem em conta que a vida em sociedade não o é. A vida em sociedade é uma miscelânea.

Andamos por aqui, os brancos e os pretos, os pretos e os brancos (vou abster-me de falar das outras cores de pele, branco e preto serve o propósito) a dar-nos bem e a dar-nos mal, a engatar-nos e a rejeitar-nos, a roubar e a ser roubados, a matar-nos e a ser mortos, enfim, a fazer aquilo que as pessoas fazem. E as pessoas podem ser boas ou más, problemáticas ou tranquilas e uma série de outras coisas, pois isto das pessoas e do que pensam e fazem é tudo menos uma ciência exata. O que há mais por aí são teorias que ignoram, seja por má-fé ou por mera incompreensão, as nuances de uma miscelânea e a natureza aleatória e imprevisível da vida.

“Olha, olha, só faltava cá este agora a escrever que o racismo não existe…”

Eu escrevi isso? Não escrevi. Não defino certezas onde só há incertezas. Há racismo, claro. Há, por exemplo, por aí, em Portugal e pelo mundo, pessoas brancas, algumas reunidas em grupos criminosos ou não, que detestam pretos e outras pessoas de cores, credos e escolhas diferentes das suas. E há também por aí, pretos, alguns reunidos em grupos criminosos ou não, que detestam brancos e outras pessoas de cores, credos e escolhas diferentes das suas. Nada disto é novidade. E o meio-termo? O meio-termo é onde a vida realmente acontece.

Deixe-me contar-lhe algumas histórias.

Cresci em Matos-Cheirinhos, uma terreola no concelho de Cascais, colada a Tires, a terra da prisão das mulheres e do aeródromo. O meu melhor amigo na escola primária era o Celestino. A primeira vez que fui a casa dele, não me demorei. A casa cheirava mal. Cheirava mal porque ele era preto? Não, cheirava mal porque a casa estava suja. Não tem a ver com o facto de serem pobres, que o eram, nem de serem pretos. Tem a ver com não limparem a casa. Os pais do Celestino tratavam-me bem. Mas o irmão mais velho não. Batia-me. Eu disse em casa: “não gosto daquele preto, mas gosto dos outros”. A minha mãe, preocupada, disse-me que não se devia dizer “preto”, mas sim “pessoas de cor”. Mas eu ouvia o meu pai, no café, usar a palavra “pretos” para se dirigir aos amigos de cor. Nunca vi ninguém se zangar com isso.

Cresci assim, entre pretos e brancos, bons e maus.

Ia a pé para a escola preparatória em Matarraque, perto da Parede. O atalho que tomava ficava nuns campos onde acampavam ciganos. Os ciganos mais novos tinham um entretém: atirar pedras a quem passava. E eu fartei-me de ser apedrejado (ripostei algumas vezes, claro!) e chegava a casa e dizia: “não gosto de ciganos”. Só que havia os outros ciganos, os da feira, de quem eu gostava porque brincavam comigo e me davam rebuçados e pastilhas quando lá passava com os meus avós ao sábado de manhã.

Por volta dos meus 15 anos, apanhava o autocarro junto ao bairro das Faceiras, perto do cemitério de São Domingos de Rana, para ir para a secundária de Carcavelos. O bairro das Faceiras fora construído para acolher refugiados e retornados das ex-colónias portuguesas após o 25 de Abril de 1974. Perdi a conta às vezes que fui assaltado na paragem. Não havia grandes danos, para além dos empurrões, pois não levava para a escola mais do que o passe e os livros; e esses, os rufias não os queriam. Quem já esteve rodeado por um grupo de pretos a chamar-lhe “pula de merda” (“pula”, gíria que significa pessoas brancas), e a dizer de punhos encostados na minha cara “a vossa raça é fraca, preto é mais forte”, sabe que o racismo não é exclusivo do branco para o preto.

E a coisa é tão complexa que este grupo incluía um miúdo branco que não morava nas Faceiras, mas que estava sempre com eles. Falava como os pretos e era o mais agressivo de todos. Empurrava-me e dava-me pontapés sem parar. Numa das vezes, tentei ripostar e vi-me agarrado por meia dúzia de pretos até o branco me dar uma chapada. Um dia, aproximou-se, perguntou-me o nome e, quando lhe respondi, disse: “a partir de agora és o estúpido”. E começou a chamar-me estúpido e a rir-se para os outros enquanto me empurrava para um lado e para o outro até que chegou o autocarro que me levou para longe dele. As agressões repetiram-se vezes sem conta, muitas vezes com adultos ao pé, brancos e pretos, que olhavam para o lado.

Um dia, já com 17 anos, o Zezinho, preto, e eu, branco, entrámos no autocarro. O destino de ambos era Carcavelos. Estávamos distraídos na conversa quando ouvimos um som metálico que ambos conhecíamos. O revisor tinha entrado na paragem de São Domingos de Rana e o condutor arrancou imediatamente. O revisor não conferiu os bilhetes a mais ninguém e dirigiu-se aos lugares de trás, onde estávamos sentados. Era um homem alto e estava sempre zangado. Lembrava o Clint Eastwood em Dirty Harry, só que em vez da Magnum 44, trazia na mão um marcador de bilhetes metálico, com que batia nos ferros do autocarro para dar indicação ao condutor que podia arrancar. Ao ver o revisor aproximar-se, o Zezinho quase correu em direção à porta.

Havia uma paragem logo ali a seguir e eu percebi que devia existir algum problema com o passe dele e que ele esperava escapar antes de o revisor nos abordar. Segui-o. O autocarro parou na paragem, mas o revisor bateu com o marcador no ferro e o condutor não abriu a porta. Pediu o passe ao Zezinho, que o mostrou. “Este passe só é válido até São Domingos de Rana, vou multar-te.” Tentámos argumentar, mas era inútil. O revisor sacou do bloco e passou a multa. Não me pediu para mostrar o passe ou o bilhete. Saímos do autocarro. Quando a porta estava a fechar-se, ouvimo-lo dizer: “Cuidado com as companhias, miúdo.” Dirigia-se a mim, claro.

— Eu ajudo-te a pagar isso — disse eu ao Zezinho. Eu já trabalhava a montar e a consertar estores nos períodos em que não tinha aulas, ganhava bem, e podia fazê-lo.

Nunca contei ao Zé que o meu passe também só era válido até São Domingos de Rana.

Nessa altura, tinha um colega na escola que se chamava Jean Pierre. Vestia-se como um skinhead: calça de ganga com dobras, T-shirt branca, botas da tropa e casaco bomber preto. Cabeça rapada, claro. Se os maiores lhe perguntavam se era skinhead, dizia que não. Mas junto dos mais pequenos, nos quais me incluía, dizia que no fim-de-semana ia com o grupo para Almada e que iam fazer a folha a uns pretos. Às vezes, recebia a visita de uns amigos que se vestiam como ele. E aí “crescia”, abria os braços ao caminhar, espetava o peito, todo ele era moral. Mas quando estava sozinho, e um preto se aproximava e olhava para ele de forma intimidatória por aquilo que ele parecia ser, encolhia-se como um ouriço. Não sei se o Jean Pierre era mesmo racista. Mas sei que era cobarde. E parvo.

O autor escreve segundo o Acordo Ortográfico de 1990


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