Serra da Freita: À escuta desse silêncio onde cabe tudo e transborda de nada
Estou junto à estação meteorológica de Arouca, na Serra da Freita, a 1110 metros de altitude. À minha frente, as cumeadas sucedem‑se em camadas azuis, uma atrás da outra, esbatendo‑se até ao limite do olhar. Arouca, lá em baixo, parece ilhada, recolhida no fundo do vale, cercada por um maciço que a protege.
É fim de dia. O céu, em vez de se entregar ao espetáculo fácil de um pôr do sol em tons de laranja, decidiu ser discreto, quase severo. Nuvens negras cobrem boa parte do ocaso. Em vez de fogo, um profundo suspiro. Ainda assim, aqui e ali, as nuvens deixam escapar um brilho morno, como que a sugerir o que há por detrás da cortina.
Estão sete graus. O vento da serra trata de os diminuir, transformando‑os numa lâmina fina que se infiltra por debaixo da roupa. Enregelado, resisto ao frio em busca de uma fotografia que cumpra os requisitos mínimos de fazer jus ao que observo, ainda que saiba que nada estará à altura. Clic. Hesito, enquadro, ajusto, novo clic. Analiso. Talvez esta…
Afasto a máquina fotográfica do rosto e pego no caderno para tirar notas. O abrigo do carro é tentador, mas mantenho-me ao relento. Desconforto em vez de anestesia. Acredito que assim o relato será mais verdadeiro, e que conseguirei transmitir melhor o que vejo, o que oiço, o que sinto. Como se escrever aqui, com os dedos enregelados, fosse a única forma de registar a serra crua. Não quero uma lembrança bonita, mas a essência desta terra que apaixonou Alexandre Herculano: "Avista-se constantemente a altíssima serra de Freita (…) Torneia-se o monte e começa a descida para o Vale de Arouca. A encosta e o vale igualam em beleza a Sintra, e excedem-na na vastidão."
Aqui, o silêncio não é ausência de som, mas uma espécie de moldura. O vento percorre a encosta, toca na vegetação, nas pedras e nas estruturas metálicas da estação meteorológica e faz girar as eólicas. Do fundo do vale, lá longe, traz um gemido. Mas tudo isto é silêncio. Um silêncio que acolhe os sons que o vento traz, um silêncio onde cabe tudo e transborda de nada.
Fecho os olhos por instantes. Ouço um cão ao longe, lá para baixo, entre encostas. Talvez alguém tenha chegado a casa depois de um dia de trabalho, e o latido seja o único som que o espera. Ou talvez não. O silêncio e o som são igualmente enganadores. E eu já nem tenho a certeza de ter ouvido o cão latir. Talvez o vento me tenha pregado uma partida. Não importa. O que importa é esta sensação de que o vento e o relevo distorcem e engolem os sons, e que cada um deles é apenas uma pedra lançada num lago infinito, logo engolida pelo silêncio antes de eu conseguir perceber o que é.
À medida que escurece, a paisagem perde cor e entrega-se à noite. Há menos ruído e menos pressa. As serras ao fundo são agora sombras humildes, sem o esplendor diurno. Abdicam de qualquer protagonismo, apesar da presença dominante. Limitam‑se a ser e a estar. Ser e estar: talvez a mais simples e difícil tarefa do ser humano.
A vila de Arouca reduz‑se agora a pontos de luz dispersos que denunciam a vida que continua nas entranhas da serra. À escala desta paisagem, o tempo abranda. "Toda a pressa, aqui, é importuna", disse José Saramago de visita ao Mosteiro de Arouca. Na crescente invisibilidade da cordilheira, o tempo é medido em pequenas variações: a luz desce um tom, o frio sobe um grau de intensidade, o vento muda ligeiramente de direção. Ocorre-me que a maior parte das urgências humanas são banais e desnecessárias. Perdem volume quando as escrutinamos e percebemos o contraste entre necessidade e ânsia, entre o ruído habitual e esta economia de sons.
A noite tomou conta das cumeadas. As luzes de Arouca firmam-se no vale e o céu é uma massa negra quase uniforme, só interrompida por ligeiras nuances cinzentas junto ao horizonte. Há sempre mais céu do que nuvens. O silêncio na serra mantém-se, agora com uma textura mais forte sob a forma do vento que aumentou de intensidade. Resguardo-me no hotel, acolhedor e quente, mas sinto o apelo da crueza dos elementos na serra, logo ali depois da porta, imóvel, fria e rude.
Em silêncio, ao cobrir‑me para dormir, sinto‑me um ponto minúsculo no grande relevo que a serra desenha, tal como uma aldeia é apenas um brilho entre muitos ao cair da noite. Talvez seja essa a verdadeira função do silêncio: ativar a humildade, realinhar proporções, mostrar que o mundo não se organiza em função de quem o ouve, sente ou observa e, de vez em quando, iluminar algumas das nossas dúvidas.
Penso na serra — maciça, constante, indiferente — e adormeço à escuta desse silêncio onde cabe tudo e transborda de nada. Lá fora, o vento continua a soprar.
A Road Trip Literária - Ler é o Melhor Caminho, que sucedeu à Road Trip Literária - 18 Distritos, 18 Bibliotecas, 18 Livros, para voltar a dar palco às bibliotecas e voz a quem nelas trabalha, promovendo a leitura, a cultura e o conhecimento, reinventou-se. Para além das bibliotecas e dos autores locais, a 4.ª edição inclui outros projectos e iniciativas que valorizam a identidade das regiões, as suas pessoas e modos de vida.
O autor escreve segundo o Acordo Ortográfico de 1990
