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Encontrar o amor: a moda como resistência em tempos de guerras

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19.03.2026

Os artigos da equipa do PÚBLICO Brasil são escritos na variante da língua portuguesa usada no Brasil.Acesso gratuito: descarregue a aplicação PÚBLICO Brasil em Android ou iOS.

No último dia do Moda Lisboa, a estilista portuguesa de origem são-tomense Roselyn Silva apresentou a coleção Find Love, na passarela do MUDE — Museu de Design, no coração da cidade. Em uma tarde marcada pelo céu azul da primavera que se aproxima, diversos corpos aguardavam na fila para “Encontrar o Amor” e conhecer as tendências outorno/inverno 2026, na 66ª edição do tradicional evento.

Poderia soar quase ingênuo em um momento histórico, atravessado por contrastes e paradoxos, falar de amor em uma coleção de roupa. Mas, assim como a arte, a arquitetura e o designer, a moda nunca é somente sobre vestimentas. Diante da realidade que nos assola cotidianamente, as notícias nos fazem temer o futuro. Entre o anúncio de uma guerra e outra, mudanças climáticas, tecnologias emergentes que já nos fazem duvidar do que é real, a instabilidade do nosso tempo leva-nos a procurar formas diárias de continuar existindo.

Em um tempo em que a barbárie parece ter sido normalizada e a velocidade das redes sociais transforma emoções em mercadoria instantânea, “Encontrar o amor”, de Roselyn Silva, pode ser interpretado como uma pausa.

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O universo da moda, tantas vezes visto como superficial ou espetáculo, distante de nós e, ao mesmo tempo, tão próximo no feed do Instagram, revela aqui uma dimensão mais profunda do que apenas vestir uma roupa. Não é sobre tecidos, caimentos, texturas, cores, tendências. Mas sobre sentido, emoção e significado.

Nunca estivemos tão conectados digitalmente e, ao mesmo tempo, tão atravessados por sentimentos de solidão, ansiedade e fragmentação. As redes sociais tornaram-se espaços de visibilidade e também de disputa simbólica, onde identidades, corpos e narrativas são constantemente negociados. Neste cenário, criar novos imaginários é fundamental.

Roselyn Silva, 41 anos, lançou sua marca há dez anos. Ela tem contribuído para uma transformação importante no panorama da moda portuguesa: abrir espaço para que mulheres negras se vejam, se reconheçam e se apropriem da moda de luxo como ferramenta de afirmação de suas identidades e marcador de ascensão social. Não apenas como referência estética ou tendência passageira, mas como presença criativa, com originalidade e representatividade.

Com uma produção artesanal, os tecidos utilizados em suas coleções são de pequenos produtores, além de materiais reciclados. Como marca e pessoa, a própria estilista afirmou em entrevista, ser uma forma de contribuir com a sua comunidade, dando um significado ainda maior para o seu trabalho como designer.

A história da moda europeia é marcada por uma profunda apropriação de referências culturais negras sem o devido reconhecimento de criadores, modelos e demais profissionais do setor ao longo do tempo. O trabalho de Roselyn desloca essa lógica. As suas peças não apenas vestem corpos, contam histórias e afloram o sentimento de pertença em muitas mulheres, sobretudo, africanas e afrodescendentes.

A última coleção da estilista, marcada por cores e padrões presentes nos tecidos africanos, nesta coleção, dá lugar ao preto e branco, fazendo-a sair da sua zona de conforto como criadora. As peças coloridas, facilmente identificadas à distância, em Find Love parecem mais silenciosas, sem perder o brilho e o glamour.

Por falar em brilho, notei na plateia olhos brilhando mais do que todos os outros, entre influencers, artistas e “gente do mundo da moda”. Eram os olhos de Dona Tida, mãe da estilista. Entre fotografias e a agitação que um desfile provoca no público, ela trouxe uma camada inesperada de intimidade, ao falar da filha primogênita com ternura e cheia de orgulho disse-me algo: “O amor é tão lindo. É o que sentimos por dentro. Quando o colocamos no mundo, acontecem coisas extraordinárias.”

A frase tem algo profundamente filosófico na simplicidade da Dona Tida. O amor não é apenas sentimento abstrato; é prática, ação e escolha cotidiana. Lembrei da obra da poeta e pensadora norte-americana Audre Lorde, ao refletir sobre o amor como prática. Lorde escreveu que o amor e o cuidado são fontes de poder radical. Não como sentimentalismo ou puro amor romântico, mas como energia capaz de transformar estruturas sociais.

Find Love não ignora as tensões do mundo. Pelo contrário, parece responder a elas com uma pergunta simples: como continuamos a criar beleza, comunidade e futuro em tempos de guerras? Diante de tanto ruído, indiferença e desamor, praticar o amor continua sendo a nossa maior arma de resistência.


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