“Livros Restantes”: quando migrar é editar a própria vida
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Há um momento da migração sobre o qual se fala pouco. Não é o embarque, nem a despedida no aeroporto, nem a chegada ao novo país. É o silêncio que acontece semanas antes, quando uma mala é aberta e nos damos conta de que uma vida inteira não cabe nela.
É, então, que começa um trabalho cansativo e quase invisível. Abrimos gavetas, esvaziamos estantes, doamos roupas, vendemos móveis, distribuímos utensílios que nos acompanharam durante anos. Cada objeto nos obriga a responder a uma pergunta: será que isso ainda faz parte da minha história ou pode permanecer aqui sem mim?
Migrar é, antes de tudo, um exercício de curadoria do passado. Não escolhemos apenas aquilo que cabe na bagagem. Escolhemos quais versões de nós mesmas continuarão existindo. Toda mudança impõe um limite físico que nenhuma tecnologia conseguiu eliminar: não são os objetos que pesam mais do que a franquia da companhia aérea, mas as escolhas que fazemos.
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É justamente esse instante, tão íntimo, que o filme Livros Restantes, escrito e dirigido por Márcia Paraíso e protagonizado por Denise Fraga, transforma........
