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O Coração Ainda Bate. A arrecadação

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04.05.2026

Espanto-me com tudo aquilo que a memória guarda e que parece arrumado durante anos, décadas. Depois, há um dia em que um cheiro, uma palavra, ou uma imagem nos restaura o momento: às vezes, intacto, outras vezes, amputado, manco. Mas o momento não deixa de vir ao nosso encontro.  Ficou guardado naquilo que parece ser uma arrecadação. Estava tão ali atrás que nem sabia que existia. 

Foi neste dia da mãe que me lembrei da minha primeira ida a um ginecologista. Tinha 20 anos e fui com o meu namorado, que havia de ser o meu primeiro marido, ao consultório de um homem com ar circunspecto, um sisudo, escudado em três ou quatro palavras, que saíam a custo. Já não me lembro de onde viera a recomendação, mas tenho a certeza que não iria bater a uma porta desconhecida, como quem entra numa loja “só para ver”. Ir a um médico é uma coisa muito séria. A nossa vida depende demasiado do que nos podem dizer. 

O momento está já pouco claro, mas lembro-me de ser Inverno, noite, e de um consultório banal na baixa do Porto. Os consultórios onde mesmo os saudáveis parecem condenados ao cadafalso; uma tosse seca é o máximo que podemos........

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