Chico da Tina: Oração a São Francisco da Concertina
Cruzei-me pela primeira vez com o Chico quando o Rui me enviou o primeiro videoclipe: estávamos em 2019 e o Rui sentia-se orgulhoso em mostrar-nos este amigo da faculdade a skatar de concertina enquanto cantava. Chico da Tina era um vulto negro e brincalhão, pálido, rápido e livre nas ruas de Madrid. A primeira imagem foi uma pedrada no charco: quem é este doido de concertina na mão, skate no pé; porque vejo um casamento entre lettering de skate e filigrana portuguesa; que choque de civilizações é este?
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A palavra que vem à cabeça é vanguarda — rejeito-a. Não é isso: passou-se quase uma década e Chico não tem pares. A ascensão do kitsch na cultura pop portuguesa é evidente e Chico foi um dos timoneiros — sim, arroz —, mas essas paredes ainda são insuficientes para contê-lo.
Coço a cabeça. E, de tanto coçar, encontro a resposta na minha confusão: não há resposta — não há aquário em que caiba. A força de Chico da Tina não é ser especificamente isto ou aquilo, mas tudo e o seu contrário, ao mesmo tempo, em todas as formas e nos vários feitios. Um dia acorda e é zebra, mas ao deitar-se é já peixe; outro dia tem asas e no seguinte surge-nos de barbatanas; uma........
