A esquerda perante o abismo
Viramos o ano, viramos a página e começamos um novo ciclo a tentar dar a volta aos velhos problemas que são os de sempre. Temos sempre essa esperança no “lento levedar” que abraçamos de forma coletiva: transformar as palavras em desejos. Mas há verdades que não se dissolvem com o calendário.
A esquerda europeia atravessa uma crise existencial que já não pode ser escamoteada com eufemismos sobre “renovação” ou “adaptação aos novos tempos”. O projeto político que emergiu após o colapso do muro de Berlim, aquele que prometia libertar-se dos dogmas marxistas para reinventar a imaginação política, desmoronou-se numa incoerência estratégica devastadora. Pior: transformou-se numa força política que não só perdeu as classes trabalhadoras como se tornou cúmplice da precarização que afirma combater.
Ulrich Beck propunha nos anos 90 um “cosmopolitismo realista” como saída para a esquerda globalizada, defendendo a coordenação transnacional e a imaginação política como armas contra o domínio dos mercados. Duas décadas depois, a realidade inverteu completamente essa previsão. O que se instalou foi um cosmopolitismo abstrato, uma retórica desligada das condições materiais dos eleitores, enquanto a economia foi entregue aos algoritmos de Silicon Valley e a redistribuição cedeu lugar à política identitária.
A migração cristaliza esta contradição com clareza brutal. Beck antecipava os perigos da “Europa-fortaleza” construída por consenso partidário alargado. A resposta progressista, porém, ignorou qualquer equilíbrio entre reconhecer benefícios estratégicos da imigração e acolher ansiedades legítimas das populações. Instalou-se um apoio incondicional à livre circulação, apresentado como imperativo moral inquestionável, sem análise sobre capacidade de integração, pressão salarial ou coesão social. Milhões de trabalhadores........
