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Cronista forasteiro

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19.03.2026

Os artigos da equipa do PÚBLICO Brasil são escritos na variante da língua portuguesa usada no Brasil.Acesso gratuito: descarregue a aplicação PÚBLICO Brasil em Android ou iOS.

Ler está fora de moda, escrever também. Ainda assim, insisto: leio todos os dias, escrevo todos os dias. Naturalmente, faço isso porque, na condição de professor e investigador em uma universidade portuguesa, sou obrigado a ler, escrever e publicar. Mas isso não é a coisa mais importante. Contra tudo e todos, inclusive a despeito da pobreza material que durante muitos anos espreitou a minha vida e que quase me negou acesso aos livros, gosto até mais de escrever do que, propriamente, de já ter escrito. Jamais vou entregar esse prazer alegre ao engenho opaco de um chatbot.

Isso não significa, entretanto, que gosto de escrever qualquer texto. Ando extremamente entediado, para não dizer extremamente irritado, com a escrita de artigos acadêmicos que meu trabalho exige. Estes, acho que já disse isso em algum texto que publiquei por aí, não passam de PDFs frios que quase ninguém lê, a não ser meia dúzia de especialistas de rostos ensebados e dedos engordurados de tanto escrever os mesmos textos sem vida; ainda que muitos deles sejam, vejam bem a contradição, estudiosos dos campos das artes e das humanidades. Por isso, tenho apostado, cada vez mais, nos ensaios reflexivos, literários e culturais; sou apaixonado, confesso meu amor, pelos escritos de Silviano Santiago.

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Publiquei dois livros de ensaios e, ainda assim, não estou satisfeito. Meu primeiro romance já está no prelo, e mesmo assim não estou satisfeito. Sou engolfado, todos os dias, pelo ímpeto estranho de algum texto ainda desconhecido que me espreita, se avizinha aos poucos, e que me coloca, mesmo que não o publique, a escrever.

Repito: gosto mais do processo da escrita, da sua alegria, de suas frustrações, do seu grito tosco, dos gargalos do próprio texto, do que encerrá-lo como quem coloca um corpo humano em um caixão. Mas publicar é preciso, digo a mim mesmo, como alguém que ainda quer ou necessita estender alguma ponte sobre um abismo que separa, cada um de nós, em suas próprias torres enclausuradas; ou nas suas bolhas digitais, para quem desejar uma metáfora menos démodé.

“E se, para construir estas pontes de diálogo, eu escrever e publicar crônicas? Afinal, um texto não publicado é um texto que não existe”, argumento comigo mesmo. “Mas todo mundo tem falado tanto, e no final de contas, ninguém mais se escuta”, rebate outra voz dentro da minha cabeça. “E eu nem ao menos sei, de fato, se consigo escrever crônicas, pois não sou bem bem-humorado e sofro das palavras prolixas”. Foi o que pensei minutos antes de estar aqui, escrevendo esta pequena crônica.

Veja bem, eu nasci e cresci no Brasil, o país da crônica. No Brasil, a crônica é um gênero forasteiro, de origem europeia, mas que, nas mãos de Machado de Assis, João do Rio, Clarice Lispector e tantos outros, se aclimatou, cresceu e deu belos frutos. Foi Humberto Werneck, que, por sinal, é brasileiro e cronista, quem também disse isso.

E eu, que durante anos, enquanto morava no Brasil, acreditei que fosse um anticronista no país da crônica, agora estou aqui, escrevendo uma crônica não em um jornal brasileiro, mas sim em um jornal português. Sou, como a crônica, um forasteiro geográfico; e sou também um estrangeiro no próprio gênero da crônica. Mas a literatura, assim como a vida, não admite fronteiras. É por isso que, esta minha crônica, neste jornal, é apenas a primeira.


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