Que a minha filha não herde menos Abril do que eu
Abril é na Primavera, com dias onde o sol aquece quando passeamos pela rua ou falamos com amigos entre dois copos numa esplanada.
Ainda assim há um arrepio que sinto e que não se explica pela meteorologia. Vem das notícias, das entrelinhas, das pequenas desistências que se vão acumulando como pó nos cantos da casa. Não são movimentos bruscos. São toques subtis que fazem alterar a rota, assim como quando saltávamos ao elástico e alguém o segurava mal e não percebíamos porque deixávamos de conseguir saltar. E talvez por isso seja mais perigoso. Porque vem disfarçado de coisa boa.
Cresci a ouvir que Abril era conquista. Estava aqui. Era nosso e não iria nunca para lado algum.
Abril não é uma palavra bonita para discursos. Abril é poder falar, escolher, discordar, viver sem pedir licença. Ouvi histórias — de quem não podia, de quem lutou, de quem abriu caminho.
E durante muito tempo pareceu garantido. Como se a liberdade, uma vez conquistada, criasse raízes tão fundas que ninguém mais a arrancaria.
Mas a liberdade não é uma árvore. É mais frágil e mais exigente. Precisa de mãos, cuidado.
Houve um momento, quase silencioso, em que me dei conta de que algo está a encolher.
Nos direitos que se discutem como se fossem privilégios. Nos discursos que parecem antigos demais para caberem no presente. Na forma como, devagar, alguém tenta escolher por nós — o corpo, a voz, o lugar.
E é aí que Abril deixa de ser memória.
Abril não é o que aconteceu. Não é um dia ou uma revolução. Abril são direitos, democracia, liberdade. Abril é caminho para o futuro.
Talvez seja por isso que penso em Abril quando penso na minha filha e na responsabilidade que tenho em deixar-lhe mais futuro que passado.
É preciso que Abril lhe chegue inteiro e com força para crescer.
Abril é uma herança que não se guarda em gavetas. Passa-se de mão em mão, como um gesto aprendido. Como quem ensina a não baixar os olhos. Como quem lembra que houve quem não se calasse — e que isso não foi um acaso, foi escolha.
E escolher dá trabalho.
Dá trabalho não aceitar o inevitável quando ele aparece disfarçado de normal. Dá trabalho levantar-se quando é mais fácil ficar. Dá trabalho recusar o recuo, mesmo quando ele vem devagarinho, quase impercetível.
Mas é nesse esforço que Abril respira.
Não em datas. Em gestos, em resistência, massa crítica e liberdade.
Abril está num cravo vermelho erguido na mão de uma voz que não cede. Numa recusa tranquila mas firme em andar para trás. Numa presença forte, que resiste e luta por mais futuro.
Não quero "fazer Abril de novo". Quero continuá-lo.
E talvez seja isso, no fundo, o mais simples e o mais difícil: garantir que amanhã não haja menos liberdade, menos futuro do que hoje.
Garantir que ninguém escolhe por quem vem depois. Garantir que aquilo que foi conquistado não se transforma, com o tempo, em saudade.
Abril não se celebra apenas. Rega-se, mantém-se.
E enquanto houver quem o leve consigo — nas mãos, na voz, na rua — há futuro.
E a minha filha herdará mais Abril do que eu.
