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O menino da Avó

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14.10.2026

O avental azul da minha Avó continua pendurado na porta da despensa, preso num prego torto que o meu Avô prometeu endireitar em 1995 ou, talvez, em 1997. Os mortos guardam certas datas com a minúcia dos santos e deixam outras perder-se como moedas no fundo de um bolso. Há quase vinte anos que ninguém precisa daquele avental. A minha mãe lava-o de vez em quando. Diz que é por hábito e depois lança-o para o estendal, entre lençóis e camisas, e o tecido enche-se de vento, ganha braços, um ventre breve, uma aparência de regresso. Talvez o hábito seja uma pequena superstição doméstica ou, quem sabe, um detergente barato contra a morte.

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Da rua da frente, vê-se a janela da marquise. Ainda olho para lá, de vez em quando. Não espero encontrá-la atrás do vidro: sei que morreu. Lembro-me das cadeiras encostadas às paredes da sala e das visitas a sussurrarem com aquele fervor indecente de quem recebeu uma notícia importante. Lembro-me de um bolo seco num prato de porcelana, porque até o luto tem........

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