Ser ou não ser “cota”, eis a questão
Conversa entre um amigo e eu:
Eu: 'Tamos "cotas".
Meu amigo: Não digas isso. Não estamos nada.
Eu: Estamos "cotas", sim senhor. Somos quarentões. Por isso já somos oficialmente “cotas”.
Meu amigo (num tom enfático): Nãooo! Acho mesmo que só somos “cotas” quando somos mais velhos.
Eu: Quando?
Meu Amigo: Sei lá… (pausa pensativa) Ya, man… Ainda falta bué.
Eu acho que só o facto de dizermos "Ya, man” e “bué” enquanto bebemos um chá num bar às 22h já é indicativo da nossa "cotice".
“Bué” já foi moderno: nos anos 1990. Era “jovem”, era ousado dizer “bué”. Em certos ambientes era insolente até... Lembro-me perfeitamente de ver a palavra escalar, qual alpinista semântico, até ser aceite na elite das palavras que figuram no dicionário, como um termo com definição precisa. Sempre que repito a palavra “bué” perto de adolescentes, numa tentativa deplorável de conquistar a oceânica distância linguística que nos separa, não evito reparar num simulacro de simpatia que me devolvem a camuflar uma certa caridade. Eu a dizer “bué” na conversa com um adolescente, equivale a momentos em que na minha juventude os mais velhos tentavam soar modernos, usando expressões como “ baita curtição!” — o que denunciava imediatamente o seu vocabulário arcaico e antiquado. Era como se me tivessem interpelado com um: “Mui bem aventurada seja…”
Meu Amigo: Acho que só se considera “cota” lá para os 60 anos… (esclarece o meu amigo a tentar escalar para uma definição precisa do termo).
Eu: Quando tiveres 60 anos dizes que só seremos "cotas" aos 80… e por aí adiante. "Cota" é o fulano que tem cem anos, vais-me tu dizer… Somos "cotas". Mas isso não quer dizer que sejamos antiquados.
Sorrio, e num percalço cruzo-me com o meu reflexo na montra do bar, onde dou de caras com uma mulher muitíssimo parecida comigo mas com uma aparência ligeiramente mais velha — coloco a mão sobre os........
