Imigração e saúde: porque o diagnóstico não pode parar na fronteira
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No último congresso do Partido Social Democrata (PSD), em Anadia, a ministra da Saúde, Ana Paula Martins, apresentou uma explicação para o número crescente de utentes (cidadãos) sem médico de família: boa parte da pressão viria da imigração. O esforço do Governo para contratar médicos, disse, é real, mas fica encoberto por um aumento rápido da população. É uma leitura compreensível, e fácil de comunicar. Vale a pena, ainda assim, olhá-la com calma, porque os números e a própria Constituição contam uma história um pouco diferente.
O raciocínio segue um percurso conhecido no debate público. Primeiro, olha-se para trás: a ministra recordou o estado em que, no seu entender, o Governo encontrou o Serviço Nacional de Saúde (SNS), atribuindo parte das responsabilidades à gestão anterior, do Partido Socialista (PS). Depois, olha-se para fora, situando a dificuldade em quem chega. Entre o passado e a fronteira, sobra pouco espaço para a pergunta mais útil: o que o próprio Estado, ao longo de muitos anos e de diferentes governos, fez ou deixou de fazer?
O desgaste do SNS começou bem antes de qualquer fluxo migratório recente, ainda antes do período pandêmico já havia defasagem — isto era sentido por quem buscava um médico de família ou uma consulta com um especialista. Na verdade, o mais lógico é vincular essas dificuldades a um financiamento que, durante anos, não acompanhou as necessidades, o envelhecimento da população, a saída de profissionais para o setor privado e para o estrangeiro e a falta de um plano consistente para a força de trabalho médica.
São causas internas, que existiriam com ou sem imigração. E colocar nelas um carimbo externo, atribuir a causa apenas e tão somente à demanda imigrante apenas afasta o olhar........
