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Carta aberta aos portugueses de 2040?

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11.10.2026

Em 1940, o regime salazarista decidiu comemorar aquelas que foram definidas como duas datas fundacionais para Portugal: 1140, entendido como ano da “fundação” do reino de Portugal, e 1640, ano da “restauração” da independência nacional. Por ocasião dessa dupla efeméride, oficialmente designada como Comemorações do Duplo Centenário, foram organizadas múltiplas iniciativas de norte ao sul do país: cortejos e outras encenações históricas, exposições, conferências e palestras, publicações e o restauro de monumentos históricos. Entre todas as intervenções, cabe destacar a Exposição do Mundo Português, organizada à beira do Tejo, em Belém, onde foram construídos vários pavilhões nos quais se exibiram obras relevantes do património histórico nacional, estruturas que foram produzidas ex novo para essa ocasião, bem como seres humanos, trazidos dos territórios coloniais ultramarinos, que foram exibidos em “aldeias indígenas”, demonstrando uma política racista de dominação.

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Importa recordar um documento-chave, produzido na altura em que o programa comemorativo ainda estava a ser organizado e que foi publicado no Diário de Notícias em junho de 1938 e reeditado no ano a seguir na Revista dos Centenários. Trata-se da "Carta aberta aos portugueses de 1940" (1), redigida por António Ferro, jornalista, escritor, homem-forte da propaganda do regime e responsável pelo Secretariado de Propaganda Nacional (SPN, depois Secretariado Nacional de Informação, Cultura Popular e Turismo ou SNI) desde 1933 até 1949. Este documento tinha como objetivo enquadrar as comemorações que se avizinhavam numa ideologia nacionalista e idealizadora do passado histórico e mobilizar a população para estas, justificando o esforço árduo que elas — para serem concretizadas — requeriam da sociedade, sobretudo numa conjuntura extremadamente complicada do ponto de vista económico. Nesta carta, autêntico manifesto oficial das comemorações, Ferro profetizava que todo o esforço realizado pela população portuguesa em 1940 levaria "os portugueses de amanhã, os portugueses de 2040", a sentirem a "necessidade imperiosa de celebrar (…) o centenário de 1940", descrito como "o centenário dos centenários”.

A data de 2040 aproxima-se inexoravelmente, pelo que cabe perguntar-se se a profecia de Ferro se cumprirá ou não. Será que o conjunto da população que atualmente vive no país sente a “necessidade imperiosa” de reconhecer as comemorações que o aparelho ideológico salazarista impôs à sociedade portuguesa de há um século? Em última análise, cabe perguntar-se se o país é ainda refém da máquina propagandística da ditadura salazarista, aquela que se serviu do passado........

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