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Os prisioneiros da esquerda

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07.04.2026

O pensamento “left” atingiu o ponto alto da sua história com José Estaline – também reconhecido nos meios carinhosos da esquerda como o Zé dos bigodes. O glabro Mao não lhe ficou atrás em número de mortos – 60 milhões é uma cifra bastante boa. Também Pol Pot, que não deve ter ido além de uns modestos 3 ou 4 milhões, teve alguns bons apontamentos coreográficos na apresentação da morte e dos mortos. Porém, nenhum destes dois nem qualquer outro alcançou a perfeição burocrática e o respeito pelos princípios do marxismo-leninismo cultivados pelo regime soviético.

Ao longo dos anos foram achanatados múltiplos desvios da ortodoxia comunista, alguns ainda sobrevivem em pequenos lugares ou em lado nenhum. Trotsky não foi compreendido nem perdoado e o desvio trotskista não conseguiu mais do que o governo de umas repúblicas na alta de Coimbra. O legado trotskista é hoje o de uma profunda inquietação que compete com o acne e devora rapazes magricelas, ano após ano. Fidel, o charmoso, ainda conseguiu  na sua ilha umas dezenas de milhares de vítimas mas não foi mais longe do que uma versão idílica da miséria. E Guevara, que lhe deu o seu rosto juvenilmente transgressor, resta admirado pelo instantâneo fortuito de Alberto Korda mas não suficientemente reconhecido pelos laboriosos assassínios de La Cabaña. O Eurocomunismo de primitiva inspiração gramsciana teve um infância meteórica com Berlinguer e Carrillo – até ser atropelado pela Perestroika. O que restou de Gramsci atafulha agora as universidades e origina sucessivos sarampelhos que, como o sarampo e a morte do capitalismo, sete vezes vêm ao pêlo. Tudo resumido, o comunismo nunca recuperou do desaparecimento de Estaline. Foi com ele que teve os seus anos melhores e foi então que floriram os Gulags e o Holodomor. A Praça Lubyanka e a Sibéria foram a cidade e as serras da União Soviética – não por uma premonição de Eça, mas tal como Urbano Tavares Rodrigues as terá apreciado – continuam a ser a versão mais harmoniosa e performativa do comunismo. Depois aconteceu Gorbatchev, deu-se o desmembramento, aconteceram as carraspanas de Yeltsin e apareceu Putin.

Rita Rato confessou desconhecer algumas dessas coisas. Mesmo que as desconhecesse todas é de crer que não seria desqualificada para dirigir o Museu do Aljube. Era em 2019 uma jovem licenciada em Ciência Política, militante comunista, tivera uma carreira de deputada pelo PCP desde os 26 anos e encontrava-se sem emprego. Fernando Medina dirigia então a Câmara de Lisboa e delegou na sua empresa municipal EGEAC (“responsável pela preservação, promoção e gestão de alguns dos mais emblemáticos espaços culturais da cidade e pela realização das Festas de Lisboa e de outros grandes eventos culturais”) o preenchimento da vaga de emprego que se abrira na sequência da reforma do seu director, o investigador e historiador Luís Farinha. É muito escassa a informação sobre o processo de escolha. Sabe-se que a Dra. Rita Rato “se destacou pelo projeto apresentado e pelo desempenho nas entrevistas realizadas com o júri”. Não se encontra publicitado o seu projecto mas fica claro que o júri privilegiou na senhora a isenção de quem não tinha experiência em museologia, valorizou o olhar limpo de quem não tinha qualquer formação histórica e pesou os detalhes pessoais que mais o impressionaram. É dito que a licenciada Rita Rato fica melhor nas fotografias do que nas entrevistas – uma consequência inevitável de nas fotografias poder mostrar o que tem e de, nas entrevistas, se notar melhor o que lhe faz falta. Mas, feito o elogio possível, diga-se que a triste vida do Aljube deveria ser mais bem cuidada.

A função da Cadeia do Aljube remonta à ocupação muçulmana, tal como o seu nome. A sua história longuíssima é a de uma prisão, foi prisão durante mais de 1000 anos e também no século XX, enquanto foi útil à primeira república e ao estado novo. Ocasionalmente serviu de residência eclesiástica e para o que mais foi preciso, foi companheira de outros aljubes históricos no seu tempo histórico. O Aljube não foi criado por Salazar para atormentar os admiradores do paraíso estaliniano. Foi Salazar quem acabou com a prisão do Aljube, cerca de 10 antes do 25 de Abril, data em que terminou o seu regime autoritário, e também do 25 de Novembro, quando, com efeitos notoriamente flatulentos, foi igualmente abortada a ditadura comunista.

A Dra. Rita Rato terminou o seu mandato em 2026 e não foi reconduzida na........

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