O momento digital "De Gaulle" da Europa
1 A transição para um ambiente estratégico profundamente digitalizado reconfigura os fundamentos clássicos da soberania militar. No século XXI, o poder militar deixou de assentar exclusivamente em plataformas cinéticas para depender de infraestruturas imateriais – dados, algoritmos, inteligência artificial, computação distribuída e sistemas de comando e controlo digital. Esta mutação confirma, em termos contemporâneos, a tese de Hedley Bull de que a autonomia dos Estados depende da posse de capacidades estruturais essenciais à preservação da ordem e da soberania; hoje, essas capacidades são crescentemente digitais.
É neste quadro que a afirmação do almirante Pierre Vandier – a NATO não dispõe de alternativa à Palantir Technologies – deve ser interpretada. No plano operacional imediato, a afirmação é compreensível; no plano estrutural, é profundamente problemática, pois cristaliza aquilo que Barry Posen designou como dependência estratégica, isto é, a incapacidade de um Estado (ou conjunto de Estados) de controlar autonomamente os meios que sustentam a sua segurança. Se a Europa aceitar que o sistema nervoso da guerra, i.e., a camada operativa digital que integra sensores, inteligência, fogos e decisão, fique sob controlo de uma empresa privada americana, estará a abdicar de soberania sobre uma das dimensões mais críticas do poder militar do século XXI: a própria informação do campo de batalha.
2 Este momento tem uma semelhança notável com o raciocínio de Charles de Gaulle durante a Guerra Fria. De Gaulle, tal como interpretado por Raymond Aron, compreendeu que a soberania francesa seria incompleta se o seu dissuasor nuclear dependesse de decisões políticas americanas ou de estruturas de comando integradas. A sua recusa em colocar a força nuclear francesa sob controlo externo não foi um gesto antiamericano. Foi um ato de realismo estratégico. De Gaulle reconheceu um princípio fundamental do poder: uma nação que não controla as suas capacidades militares mais críticas não controla plenamente o seu próprio destino.
A dependência europeia de fornecedores externos para sistemas de comando e controlo, fusão de dados e IA militar reproduz, no plano digital, a vulnerabilidade que De Gaulle procurou evitar no plano nuclear. Parafraseando Aron, a autonomia estratégica não é um luxo; é uma condição de liberdade política.
3 Hoje, o software de defesa e os sistemas de comando apoiados por IA ocupam um papel cada vez mais análogo ao da dissuasão nuclear no século XX. A........
