O confronto na cultura de cancelamento
A polémica em torno de Sidney Sweeney é um exemplo revelador da transformação que atravessa a direita e a esquerda contemporâneas. Calendários de bombeiros seminus são vistos como divertidos, fotografias de atletas como Megan Rapinoe ou Serena Williams nunca provocaram crises morais, e a exposição do corpo em campanhas públicas é, em geral, tratada como irrelevante. Porém, quando Sidney Sweeney decide mostrar o seu corpo, instala‑se um escândalo: fala‑se em “perversão”, “indignidade” e “sexualização do desporto feminino”. A reação não é proporcional ao gesto, mas à identidade de quem o pratica. O problema não parece ser a nudez ou o respeito pelo corpo feminino; o problema parece ser quem se despe – e se essa pessoa é politicamente conveniente para quem se indigna ou apoia.
Este puritanismo seletivo é uma das faces da cultura de cancelamento que a esquerda desenvolveu ao longo das últimas décadas, mas que a direita passou anos a denunciar e que hoje reproduz com igual fervor – ainda que em sentido inverso. O caso Sweeney torna isso evidente: a esquerda reage com indignação moral, denunciando “perversão”, “indignidade” ou “sexualização do desporto feminino”, enquanto a direita a transforma imediatamente num símbolo anti‑woke, celebrando a mesma atitude como expressão de liberdade individual e resistência cultural.
Por outra palavras, o que ontem era celebrado pela esquerda como autonomia corporal passa a ser condenado quando protagonizado por alguém que não se enquadra no seu imaginário político; e aquilo que a direita antes criticava como “exposição indevida” passa a ser defendido quando quem o pratica é útil para a sua narrativa contra o progressismo identitário. A mesma atitude é lida de forma oposta consoante o campo ideológico: indignação quando vem do adversário, aplauso quando vem do aliado.
Portanto, o que este episódio revela não é um debate genuíno........
