A Gronelândia e o choque das civilizações
Nova prévia: quando comecei a escrever o artigo, dar 100 mil euros a cada habitante da Gronelândia era apenas uma hipótese incluída num cenário. Entretanto, já apareceram posts no X que dizem que os EUA consideram oferecer entre 10 mil a 100 mil euros aos gronelandeses para que estes apoiem a secessão da Dinamarca.
Qual é a probabilidade de os EUA anexarem a Gronelândia à força? Até aos posts no X, pensei que era baixa. Agora aumentou. E eu nunca desconsidero a possibilidade do absurdo.
1 A 4 de agosto de 1916, o governo dos Estados Unidos informou a Dinamarca de que não levantaria objeções à extensão dos interesses dinamarqueses de modo a abranger toda a Gronelândia. Esta posição era surpreendente, tendo em conta a longa vigência da Doutrina Monroe de 1823, tradicionalmente interpretada como um limite à expansão colonial europeia no Hemisfério ocidental. A declaração norte‑americana abriu, na prática, caminho ao reconhecimento internacional mais amplo da soberania dinamarquesa sobre a ilha.
A importância da declaração foi dupla. Em primeiro lugar, parecia contrariar a interpretação tradicional da Doutrina Monroe. A mensagem do Presidente James Monroe, em 1823, advertia que qualquer nova intervenção europeia ou expansão territorial nas Américas — incluindo a Gronelândia — seria considerada um ato hostil pelos Estados Unidos. A Dinamarca, que procurava consolidar o controlo sobre toda a Gronelândia desde a década de 1880, obteve assim, com um simples gesto diplomático, o reconhecimento formal de que necessitava: os Estados Unidos aceitavam agora a soberania dinamarquesa sobre toda a ilha.
Em segundo lugar, a posição norte‑americana incentivou outros Estados a reconhecer a pretensão dinamarquesa. O único governo que manifestou oposição aberta foi o da Noruega, que na época procurava expandir a sua presença no Ártico para reforçar a sua indústria pesqueira. Ainda assim, a declaração de 1916 revelou‑se decisiva para consolidar a posição internacional da Dinamarca como soberana da Gronelândia.
A 27 de abril de 1951, a Dinamarca e os Estados Unidos concluíram um acordo de defesa no âmbito da NATO, destinado a coordenar a protecção militar de toda a região do Atlântico Norte, incluindo a Gronelândia. O tratado reafirmou a soberania dinamarquesa sobre o território e autorizou as forças armadas dos EUA e de outros países da NATO a utilizarem instalações na ilha para fins de defesa colectiva. Concedeu igualmente aos Estados Unidos uma presença estratégica significativa, sobretudo na Base Aérea de Pituffik (anteriormente Base Aérea de Thule).
Este enquadramento viria a ser reforçado pelo Acordo de Defesa Adicional de 12 de dezembro de 1994, que actualizou e consolidou os fundamentos jurídicos do acordo de 1951.
Resumindo:
2 Nos últimos anos, o debate em torno da Gronelândia voltou ao centro da atenção internacional quando, durante o primeiro mandato de Donald Trump, surgiram declarações e sinais concretos de interesse dos Estados Unidos em comprar a ilha da Dinamarca. Em 2019, o próprio Trump confirmou publicamente que a aquisição da Gronelândia era uma “possibilidade estratégica”, enquadrando a ideia em termos de segurança nacional, presença militar no Ártico, acesso a recursos naturais e contenção da influência crescente da China e da Rússia na região.
Embora a Casa Branca tenha tentado apresentar a proposta como uma transação pragmática – comparável a aquisições territoriais históricas dos EUA –, a reação foi imediata e negativa. O governo dinamarquês, liderado por Mette Frederiksen, rejeitou a ideia de forma categórica, classificando-a como “absurda” e reafirmando que a Gronelândia não estava à venda. Ao mesmo tempo, o governo autónomo da Gronelândia, em Nuuk, salientou que qualquer discussão sobre o futuro da ilha devia respeitar o direito de autodeterminação do povo gronelandês, reforçando que não se tratava apenas de um activo estratégico, mas de uma sociedade com identidade política própria.
A controvérsia teve impactos diplomáticos concretos, incluindo o cancelamento de uma visita oficial de Trump à Dinamarca em 2019, e serviu para evidenciar tensões latentes sobre soberania, autonomia e presença militar estrangeira no Ártico. Como consequência, o episódio também reforçou a centralidade dos acordos existentes entre Dinamarca e Estados Unidos, especialmente os tratados de defesa que regulam a presença americana na Gronelândia, deixando claro que a cooperação estratégica deve ocorrer dentro de marcos jurídicos e políticos já estabelecidos, e não por meio de mudanças unilaterais de soberania.
3 Desde que regressou à presidência dos EUA, Donald Trump voltou a colocar publicamente em cima da mesa a ideia de adquirir a Gronelândia. A........
