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O Privilégio Inquietante de Estar Vivo

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21.02.2026

Durante quase toda a história da humanidade o sentido da vida não terá sido uma  pergunta, mas uma consequência silenciosa do simples facto de estar vivo num mundo  que oferecia resistência constante, onde cada amanhecer era uma vitória improvável sobre  o frio, a fome, a doença e a violência, e onde existir por mais um dia não era um dado  adquirido, mas uma conquista frágil, sempre provisória e ameaçada por forças que  escapavam completamente ao controlo humano.

Viver era suficiente não porque a vida fosse necessariamente boa, mas porque era rara e  tudo o que é raro carrega consigo um valor que dispensa explicação, um valor que se  sente antes de se pensar e que existe na própria continuidade, no simples facto de algo  persistir apesar de tudo o que poderia ter impedido a sua existência.

Foi nesse contexto que a evolução nos moldou, não como seres destinados a procurar  significado, mas como seres destinados a persistir, como compreendeu Charles Darwin  ao perceber que aquilo que define a continuidade da vida não é a sua capacidade de se  compreender a si própria, mas a sua capacidade de continuar, geração após geração,  através de um processo silencioso que não conhece intenção nem propósito, apenas  consequência.

Durante centenas de milhares de anos, este foi o único sentido que existiu, o sentido  biológico de continuar, de sobreviver tempo suficiente para transmitir algo de si ao futuro  e de garantir que aquilo que começara muito antes de cada indivíduo não terminaria com  ele, mesmo que este nunca chegasse a compreender o seu lugar nesse processo.

A certa altura, contudo, o ser humano começou a observar-se a si próprio e, com esse gesto simultaneamente simples e radical, abriu um espaço novo entre existir e saber que  existe. Neste vão nasceu uma inquietação que a sobrevivência, por si só, já não conseguia  apaziguar, uma vez que viver deixou de ser apenas uma condição e passou a ser também  uma experiência consciente. Foi nesse hiato que surgiram as primeiras tentativas de dar  à vida um significado que fosse para além da própria vida.

Séculos mais tarde, retirado na sua torre, escrevendo sobre si próprio como forma de  escrever sobre todos, Michel de Montaigne compreendeu que o sentido da vida não era

uma verdade externa à espera de ser descoberta, mas uma construção íntima, tecida  lentamente a partir da experiência de existir, das contradições que carregamos e da forma  como aprendemos, ao longo do tempo, a habitar o nosso próprio tempo, aceitando que  viver é, acima de tudo, aprender a viver consigo próprio.

Durante muito tempo essa construção individual foi enquadrada por estruturas maiores,  sobretudo religiosas, que ofereciam uma narrativa clara onde cada vida tinha um lugar  definido e onde o sofrimento, a perda e a morte eram integrados numa ordem mais vasta,  permitindo que o sentido não tivesse de ser criado, mas apenas reconhecido e aceite  como parte de algo maior do que o indivíduo.

Contudo, à medida que o conhecimento avançou e que o mundo se tornou  progressivamente explicável sem recurso ao divino, essas estruturas começaram a perder  a sua inevitabilidade, e o ser humano viu-se confrontado com uma liberdade colossal,  uma liberdade que não consistia apenas em poder escolher o seu caminho, mas também  em justificá-lo.

Foi esse momento que Friedrich Nietzsche identificou quando escreveu que Deus tinha  morrido, não como uma declaração religiosa, mas como o reconhecimento de que as  antigas fontes de significado tinham deixado de oferecer respostas universais, e que, a  partir desse momento, cada indivíduo teria de enfrentar a tarefa exigente de construir o  seu próprio sentido, sem garantias, sem validação externa e sem outra autoridade que  não a sua própria consciência.

Essa liberdade, que à primeira vista parecia uma conquista absoluta, revelou-se, todavia, um território difícil de habitar porque o ser humano quando confrontado com o vazio  deixado pela ausência de respostas herdadas raramente permanece nesse espaço aberto  durante muito tempo, procurando antes preenchê-lo com novas estruturas que ofereçam  a mesma sensação de direção, de valor e de pertença que as antigas crenças ofereciam. Aquilo que antes se exprimia através da fé passou, progressivamente, a exprimir-se  através da realização pessoal, transformando o percurso profissional numa forma de  vocação moderna, a produtividade numa medida silenciosa de valor individual e a imagem  projetada no olhar dos outros numa extensão da própria identidade, criando assim novos  sistemas de significado que, embora diferentes na forma, continuam a cumprir a mesma  função fundamental de proteger o indivíduo da vertigem de uma liberdade total que,  embora desejada, é também profundamente exigente.

Talvez o ser humano nunca tenha deixado verdadeiramente de procurar algo que lhe  ofereça direção, não por incapacidade de viver sem sentido, mas porque o peso de ter de  o inventar sozinho pode ser maior do que o conforto de o encontrar já desenhado. No século XX, depois de testemunhar o limite extremo do sofrimento humano como  hóspede forçado de campos de concentração, Viktor Frankl escreveu que aqueles que  têm um porquê conseguem suportar quase qualquer como, sugerindo que o sentido não  é um luxo da vida confortável, mas uma necessidade profunda da própria existência, algo  que sustenta o indivíduo quando tudo o resto falha e que permite que a continuidade não  seja apenas biológica, mas também interior.

E, ainda assim, permanece a possibilidade mais difícil de todas.

Albert Camus confrontou a hipótese de que o universo pudesse não oferecer qualquer  resposta, que o silêncio perante as perguntas humanas não fosse um teste, mas uma  condição permanente, e que, ainda assim, fosse possível viver plenamente, encontrando  dignidade não na descoberta de um sentido externo, mas na coragem de viver apesar da  sua ausência.

E é neste ponto que nos encontramos hoje, herdeiros de uma evolução que nos ensinou  a sobreviver, de religiões que nos ensinaram a acreditar, de filósofos que nos ensinaram  a questionar e de uma modernidade que nos ensinou, talvez pela primeira vez, que o  sentido da vida deixou de ser algo que recebemos e passou a ser algo que inevitavelmente  criamos.

Observamos os nossos filhos enquanto crescem, ainda imersos na simplicidade natural  de quem não precisa de justificar a própria existência, de quem encontra sentido no jogo,  na descoberta e no simples facto de estar vivo, e percebemos, talvez com uma certa nostalgia, que houve um tempo em que também para nós viver era suficiente, antes de  termos aprendido que viver implicava também compreender.

Talvez o sentido da vida nunca tenha sido uma verdade fixa, mas uma consequência das  condições em que cada geração viveu e da forma como cada indivíduo respondeu à  liberdade que herdou.

E talvez, no fim de tudo, o maior legado da evolução não tenha sido dar-nos um sentido  para a vida, mas conceder-nos algo mais exigente e profundamente humano: a  possibilidade, e ao mesmo tempo a responsabilidade, de o criar.

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