O Privilégio Inquietante de Estar Vivo
Durante quase toda a história da humanidade o sentido da vida não terá sido uma pergunta, mas uma consequência silenciosa do simples facto de estar vivo num mundo que oferecia resistência constante, onde cada amanhecer era uma vitória improvável sobre o frio, a fome, a doença e a violência, e onde existir por mais um dia não era um dado adquirido, mas uma conquista frágil, sempre provisória e ameaçada por forças que escapavam completamente ao controlo humano.
Viver era suficiente não porque a vida fosse necessariamente boa, mas porque era rara e tudo o que é raro carrega consigo um valor que dispensa explicação, um valor que se sente antes de se pensar e que existe na própria continuidade, no simples facto de algo persistir apesar de tudo o que poderia ter impedido a sua existência.
Foi nesse contexto que a evolução nos moldou, não como seres destinados a procurar significado, mas como seres destinados a persistir, como compreendeu Charles Darwin ao perceber que aquilo que define a continuidade da vida não é a sua capacidade de se compreender a si própria, mas a sua capacidade de continuar, geração após geração, através de um processo silencioso que não conhece intenção nem propósito, apenas consequência.
Durante centenas de milhares de anos, este foi o único sentido que existiu, o sentido biológico de continuar, de sobreviver tempo suficiente para transmitir algo de si ao futuro e de garantir que aquilo que começara muito antes de cada indivíduo não terminaria com ele, mesmo que este nunca chegasse a compreender o seu lugar nesse processo.
A certa altura, contudo, o ser humano começou a observar-se a si próprio e, com esse gesto simultaneamente simples e radical, abriu um espaço novo entre existir e saber que existe. Neste vão nasceu uma inquietação que a sobrevivência, por si só, já não conseguia apaziguar, uma vez que viver deixou de ser apenas uma condição e passou a ser também uma experiência consciente. Foi nesse hiato que surgiram as primeiras tentativas de dar à vida um significado que fosse para além da própria vida.
Séculos mais tarde, retirado na sua torre, escrevendo sobre si próprio como forma de escrever sobre todos, Michel de Montaigne compreendeu que o sentido da vida não era
uma verdade externa à espera de ser descoberta, mas uma construção íntima, tecida lentamente a partir da experiência de existir, das contradições que carregamos e da forma como aprendemos, ao longo do tempo, a habitar o nosso próprio tempo, aceitando que viver é, acima de tudo, aprender a viver consigo próprio.
Durante muito tempo essa construção individual foi enquadrada por estruturas maiores, sobretudo religiosas, que ofereciam uma narrativa clara onde cada vida tinha um lugar definido e onde o sofrimento, a perda e a morte eram integrados numa ordem mais vasta, permitindo que o sentido não tivesse de ser criado, mas apenas reconhecido e aceite como parte de algo maior do que o indivíduo.
Contudo, à medida que o conhecimento avançou e que o mundo se tornou progressivamente explicável sem recurso ao divino, essas estruturas começaram a perder a sua inevitabilidade, e o ser humano viu-se confrontado com uma liberdade colossal, uma liberdade que não consistia apenas em poder escolher o seu caminho, mas também em justificá-lo.
Foi esse momento que Friedrich Nietzsche identificou quando escreveu que Deus tinha morrido, não como uma declaração religiosa, mas como o reconhecimento de que as antigas fontes de significado tinham deixado de oferecer respostas universais, e que, a partir desse momento, cada indivíduo teria de enfrentar a tarefa exigente de construir o seu próprio sentido, sem garantias, sem validação externa e sem outra autoridade que não a sua própria consciência.
Essa liberdade, que à primeira vista parecia uma conquista absoluta, revelou-se, todavia, um território difícil de habitar porque o ser humano quando confrontado com o vazio deixado pela ausência de respostas herdadas raramente permanece nesse espaço aberto durante muito tempo, procurando antes preenchê-lo com novas estruturas que ofereçam a mesma sensação de direção, de valor e de pertença que as antigas crenças ofereciam. Aquilo que antes se exprimia através da fé passou, progressivamente, a exprimir-se através da realização pessoal, transformando o percurso profissional numa forma de vocação moderna, a produtividade numa medida silenciosa de valor individual e a imagem projetada no olhar dos outros numa extensão da própria identidade, criando assim novos sistemas de significado que, embora diferentes na forma, continuam a cumprir a mesma função fundamental de proteger o indivíduo da vertigem de uma liberdade total que, embora desejada, é também profundamente exigente.
Talvez o ser humano nunca tenha deixado verdadeiramente de procurar algo que lhe ofereça direção, não por incapacidade de viver sem sentido, mas porque o peso de ter de o inventar sozinho pode ser maior do que o conforto de o encontrar já desenhado. No século XX, depois de testemunhar o limite extremo do sofrimento humano como hóspede forçado de campos de concentração, Viktor Frankl escreveu que aqueles que têm um porquê conseguem suportar quase qualquer como, sugerindo que o sentido não é um luxo da vida confortável, mas uma necessidade profunda da própria existência, algo que sustenta o indivíduo quando tudo o resto falha e que permite que a continuidade não seja apenas biológica, mas também interior.
E, ainda assim, permanece a possibilidade mais difícil de todas.
Albert Camus confrontou a hipótese de que o universo pudesse não oferecer qualquer resposta, que o silêncio perante as perguntas humanas não fosse um teste, mas uma condição permanente, e que, ainda assim, fosse possível viver plenamente, encontrando dignidade não na descoberta de um sentido externo, mas na coragem de viver apesar da sua ausência.
E é neste ponto que nos encontramos hoje, herdeiros de uma evolução que nos ensinou a sobreviver, de religiões que nos ensinaram a acreditar, de filósofos que nos ensinaram a questionar e de uma modernidade que nos ensinou, talvez pela primeira vez, que o sentido da vida deixou de ser algo que recebemos e passou a ser algo que inevitavelmente criamos.
Observamos os nossos filhos enquanto crescem, ainda imersos na simplicidade natural de quem não precisa de justificar a própria existência, de quem encontra sentido no jogo, na descoberta e no simples facto de estar vivo, e percebemos, talvez com uma certa nostalgia, que houve um tempo em que também para nós viver era suficiente, antes de termos aprendido que viver implicava também compreender.
Talvez o sentido da vida nunca tenha sido uma verdade fixa, mas uma consequência das condições em que cada geração viveu e da forma como cada indivíduo respondeu à liberdade que herdou.
E talvez, no fim de tudo, o maior legado da evolução não tenha sido dar-nos um sentido para a vida, mas conceder-nos algo mais exigente e profundamente humano: a possibilidade, e ao mesmo tempo a responsabilidade, de o criar.
Receba um alerta sempre que Tiago Almeida Pinto publique um novo artigo.
