Como Adão perante a Máquina
Diz o segundo capítulo do Génesis: “Havendo, pois, o Senhor Deus formado da terra todos os animais do campo e todas as aves dos céus, trouxe-os a Adão, para ver que nome lhes daria; e o nome que ele desse a todos os seres vivos, esse seria o nome deles.” O gesto sugere mais do que a frase deixa adivinhar, porque o Criador omnipotente delega no homem o ato de nomear, ou seja, o ato de imaginar categorias, distinções, relações, o ato de transformar o indiferenciado em mundo. Deus pode tudo, mas o mundo tal como o conhecemos só existe porque alguém teve de o pronunciar em palavras. A dignidade humana, nessa leitura antiga que atravessa Santo Agostinho, Tomás de Aquino e chega intacta a pensadores contemporâneos como George Steiner, reside precisamente nesse poder de nomeação, que é simultaneamente o limite e a glória da condição humana.
Esta passagem do Génesis lê-se de outra maneira hoje sempre que um profissional se senta diante de um Agente de Inteligência Artificial, ou seja, um sistema autónomo que executa tarefas complexas em nome do utilizador, e se descobre paralisado perante a caixa de texto que pisca à espera de instruções. A dificuldade não é técnica, não é de capacidade computacional, não é sequer de confiança na ferramenta, é uma dificuldade anterior a tudo isso. Na prática, pode pedir-se quase tudo a um Agente moderno: que leia trezentos relatórios e devolva uma síntese hierarquizada, que monitorize o ........
