A sátira política como exercício de liberdade
Durante muito tempo, uma das melhores formas de perceber a política era rir dela, achava eu. Não é uma frase muito académica, mas é a verdade. Há qualquer coisa na sátira política que consegue explicar o poder de uma forma que, muitas vezes, os próprios comentadores políticos não conseguem. Talvez porque a sátira não tem a obrigação de ser neutra nem de parecer equilibrada. A sua única obrigação é ser inteligente o suficiente para expor o absurdo. E a política, sejamos honestos, tem muitas vezes um lado absurdamente sério.
Quem cresceu em Portugal nos anos 1990 e 2000 lembra-se bem disso. Programas como o “Contra Informação” transformavam a política num espetáculo acessível a todos os espectadores. Aqueles bonecos caricaturais não eram apenas humor televisivo; eram uma forma de traduzir o poder para linguagem comum. De repente, figuras institucionais que pareciam distantes tornavam-se personagens que podíamos observar, criticar e, claro, rir delas.
Mais tarde, vieram os “Gato Fedorento”, que fizeram algo ainda mais interessante: perceberam que a política portuguesa, por si só, já tinha uma dose enorme de surrealismo. Muitas vezes, bastava pegar num momento real e exagerá-lo ligeiramente para mostrar o ridículo da situação. E talvez por isso tantos sketches ficaram na memória coletiva e perduram até aos dias de hoje. Não eram apenas piadas, eram quase crónicas do nosso país.
Hoje, a sátira continua presente. Programas como “Isto é Gozar com Quem Trabalha” mostram que ainda existe espaço para olhar para a política com humor. Mas a forma como a sátira é recebida mudou muito. E esta mudança fez-se sentir porque o ambiente político também mudou.
Com as redes sociais, tudo é interpretado de forma imediata e, muitas vezes, literal. Quase já não existe espaço para a ironia. Ou se está a favor ou se está contra. Ou se acha graça ou se considera ofensivo. A zona cinzenta, que é precisamente onde a sátira vive, parece ter desaparecido das “conversas de café”.
Isso cria um paradoxo curioso. A sátira política talvez nunca tenha sido tão necessária. Num momento em que o discurso político é tão carregado, constante e polarizado, o humor poderia ser uma forma saudável de distanciamento.
Mas, ao mesmo tempo, tornou-se mais difícil de a fazer. Hoje, qualquer piada corre o risco de ser interpretada como militância política. O humorista deixa de ser visto como alguém que observa o poder e passa a ser imediatamente posto num campo ideológico. E, nesse momento, perde-se uma parte da função da sátira.
A sátira sempre foi sobre humanizar a política. Talvez seja por isso que continuo a achar que uma democracia saudável precisa de sátira. Precisa de jornalistas, de analistas, de debates sérios e de instituições fortes, claro. Mas também precisa de alguém que, de vez em quando, olhe para tudo aquilo e diga o que muitas pessoas estão a pensar: às vezes, a política é demasiado importante para ser levada sempre a sério.
E lembre-se: quando deixamos de conseguir rir do poder, normalmente não é o humor que está em crise. É o próprio espaço democrático.
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