O algoritmo vai consultar-nos. Tragam os vossos dados!
Há quem prometa que a inteligência artificial vai salvar a saúde. Há quem jure que a vai matar de vez. A verdade, como sempre, é mais aborrecida e mais incómoda do que qualquer um dos dois evangelhos.
Há uma certa categoria de entusiasta tecnológico que fala de inteligência artificial em saúde com o mesmo brilho no olhar com que um adolescente fala da primeira mota: é rápida, é linda, nunca se vai estragar e definitivamente não vai matar ninguém. Depois há a categoria oposta, o catastrofista de gabinete, para quem cada algoritmo é uma SkyNet em miniatura à espera de negar uma transfusão de sangue por motivos de eficiência orçamental. Entre estas duas seitas – a dos que acham que a IA vai reumanizar a medicina e a dos que acham que vai desumanizá-la de vez- há, como é hábito na vida adulta, um território imenso e pouco fotogénico chamado realidade.
Comecemos pelos factos, já que é moda recente considerá-los opcionais.
A inteligência artificial já está, de facto, dentro do hospital. Não como personagem de ficção científica, mas como produto bastante mais prosaico: software de triagem, algoritmos de previsão de sépsis, sistemas de leitura de imagem radiológica, modelos de gestão de dotações de enfermagem, chatbots de aconselhamento clínico e, cada vez mais, assistentes que ouvem a consulta e escrevem a nota clínica enquanto o médico, milagrosamente, olha para o doente em vez de olhar para o ecrã. Este último ponto não é um detalhe menor. Eric Topol – cardiologista, um dos investigadores médicos mais citados do mundo e autor de Deep Medicine – defende, com uma sinceridade que desarma os cínicos, que a maior promessa da IA não é diagnosticar melhor do que o médico, mas devolver-lhe aquilo que a burocracia digital lhe roubou: tempo de olhos nos olhos com o doente. Chama a isto, com fino sentido de ironia, a “libertação do teclado”. É uma ideia bonita. É também, valha a verdade, uma ideia que pressupõe que a tecnologia vai ser implementada para libertar o médico e não para o substituir por menos um colega na escala do mês seguinte. Aqui reside o primeiro pequeno problema: entre a promessa do laboratório e a prática do conselho de administração, há sempre um abismo financeiro que ninguém gosta de mencionar nas conferências de imprensa.
E é também o próprio Topol quem, com a mesma autoridade com que elogia a tecnologia, lhe trava as ânsias messiânicas. Numa revisão de mais de sessenta ensaios clínicos randomizados sobre inteligência artificial em medicina, não encontrou evidência consistente de que os algoritmos superem a precisão diagnóstica humana fora de tarefas muito restritas e bem definidas. Tradução para português corrente: a máquina é excelente a fazer uma coisa muito específica, repetidamente, sem se cansar – mas continua a precisar de um ser humano por perto para perceber quando essa coisa específica deixou de fazer sentido. O mesmo autor que........
