Depois não se queixem
Entre os signatários da carta “Não-socialistas por Seguro” encontro pessoas por quem tenho estima genuína. Desde professores que me ensinaram os fundamentos da democracia liberal, a companheiros de campanha com quem aprendi, na prática, como essa democracia se vive e se disputa. É precisamente por essa estima que me sinto obrigado a escrever estas linhas. Não porque lhes negue boa-fé, mas porque a carta que subscrevem nada tem de liberal e muito pouco de democrática. O seu tom é, pelo contrário, profundamente iliberal.
O argumento central é simples e solene: os não-socialistas devem apoiar um candidato socialista — não por convicção, mas por dever moral; não por escolha política, mas por higiene democrática. O gesto é apresentado como um momento de maturidade nacional, um triunfo da conciliação sobre a polarização. Contudo, quanto mais releio a carta, quanto mais observo as reacções fora da bolha onde foi gestada, mais evidente se torna o seu efeito paradoxal, ainda que previsível: longe de desarmar trincheiras, aprofunda-as.
Segundo esta lógica, a eleição deixa de ser uma escolha política ordinária e transforma-se num juízo escatológico. Se........
