Preto ou Branco? Cinzento
Os debates políticos em Portugal e na Europa vivem aprisionados numa dicotomia pueril, uma espécie de catecismo binário que reduz a complexidade da vida pública a um estéril confronto de etiquetas. “Esquerda” e “direita” são palavras que, na boca de muitos, substituem o pensamento. São dogmas, fórmulas de catequese ideológica que dispensam o esforço intelectual e a subtileza da análise. Mais do que categorias políticas, tornaram-se identidades tribais, matrizes emocionais que estruturam os preconceitos de cada facão e asseguram que ninguém, jamais, terá de lidar com a desconfortável complexidade da realidade. A narrativa da “esquerda progressista” contra a “direita retrógrada” é uma banalidade repetida por comentadores entediantes e políticos com défice de imaginação. Para os devotos da esquerda, a direita é uma expressão do conservadorismo fossilizado, do egoísmo social, da insensibilidade aos mais fracos. Para os cruzados da direita, a esquerda é o bastião do delírio igualitarista, do estatismo sufocante e do sentimentalismo económico. Ambas as caricaturas são, evidentemente, imbecis.
Seria curioso perguntar a um marxista-leninista e a um social-democrata nórdico se pertencem ao mesmo “campo político”. O primeiro, que vê na propriedade privada uma heresia, olharia para o segundo como um traidor que se vendeu ao capitalismo. Mas, na semântica preguiçosa do discurso........
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