Portugal ou o barco de Teseu: as tábuas que mudam
“Tudo é disperso, nada é inteiro.” – Fernando Pessoa
Para começar a celebrar os 900 anos de Portugal, impõe-se uma pergunta: fomos sempre os mesmos? Se sim, celebramos apenas a continuação? Trata-se apenas de duração? E se não fomos sempre os mesmos, corre-se o risco de o país acabar ou desaparecer?
1. Portugal não se desfaz porque nunca foi inteiro
Portugal parece ser uma persistente pergunta viva. Portugal dificilmente se desfaz, porque nunca foi feito de uma só peça. Fez-se mais de parcelas em movimento do que de âncoras intactas. Portugal não é uma realidade pura, imóvel e fechada, mas uma recomposição constante. Lembra o barco de Teseu.
Teseu, na mitologia grega, é o herói que mata o Minotauro; o barco em que regressa terá sido preservado pelos atenienses. Como notará Plutarco, ao longo dos anos as peças do barco vão-se degradando e sendo substituídas. A dúvida que permanece é saber se, trocadas todas as peças, seria ainda o mesmo barco. Se sim, o que faz com que continue a ser o barco de Teseu? Uma memória evocativa do que foi?
No caso português, a pergunta ganha uma forma particular: poucas nações europeias conservaram durante tanto tempo uma imagem territorial tão reconhecível e, ao mesmo tempo, mudaram tantas vezes de escala histórica. Portugal foi reino peninsular, potência marítima, império pluricontinental, país pós-imperial, membro da União Europeia e parte de uma comunidade linguística que já não cabe dentro do Estado português. Tendo administrado territórios distintos, habitado posições tão diferentes no mundo e feito da língua uma casa mais vasta do que o próprio país, o que permanece? Terá sido constante o modo como nos vemos a nós mesmos?
2. Portugal visto de lado: mapas e novos ângulos
O primeiro mapa de Portugal isolado data do século XVI. O mapa fora preparado no contexto de uma embaixada enviada pelo rei D. Sebastião a Roma, cerca de duas décadas antes da crise dinástica que levaria Portugal à perda da independência. Preparado por Fernando Álvares Seco, não se conhece o paradeiro desse primeiro desenho; foi oferecido a um cardeal e terá........
