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IA e a erosão da experiência humana

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Nas últimas crónicas tenho enfatizado por aqui algumas das consequências mais nocivas que a IA tem vindo a causar no comportamento humano. Poderá parecer, para muitos, que não sou – porque sou – um entusiasta das vantagens que a IA tem vindo a introduzir no nosso quotidiano. Não obstante, sejamos claros: a promessa sedutora de fazer mais, melhor e mais depressa está longe de se cumprir na extensão em que lemos, um pouco por aí, no apostolado da tecnologia. A verdade é que não há almoços grátis, e a natureza humana tem-se encarregado de, como habitualmente acontece quando surge algo mais disruptivo, trazer, junto com as vantagens, vários problemas e riscos. A barreira que mais me fascina, nos últimos meses, é perceber como se combate a cultura do facilitismo –a ideia nociva de que, com a IA, tudo se torna mais rápido, mais fácil, mais imediato, quase sem esforço –, como se o valor, o que verdadeiramente vale, não permanecesse associado ao que perdura no tempo, implicando esforço e resiliência.

Não me interpretem mal: a IA, em muitos aspetos, está a cumprir a sua promessa de nos libertar de tarefas repetitivas; a acelerar vários processos, tornando-os até mais consistentes; e, não duvidem, um núcleo restrito de pessoas e empresas tem já, na IA, uma fórmula mágica para ampliar as suas próprias capacidades. Agora, há todo um reverso da medalha, de destruição de capacidades humanas, que importa assinalar, sob o risco de a IA servir, de forma darwinista, para acentuar ainda mais as diferenças existentes nas sociedades ocidentais, levando a que o espaço do “meio”, que fez a felicidade nos nossos países durante algumas décadas, fique irremediavelmente partido.

Grande parte da experiência humana mais valiosa nasce da demora, da fricção, da hesitação, da possibilidade de errar e de recomeçar. Durante alguns séculos, fomos convidados a acreditar que pensar implica um certo confronto com a complexidade, sendo na dúvida que procuramos a verdade sobre as coisas. A escrita, quando associada ao pensamento humano, implica escolher e assumir as nossas decisões. São processos que exigem tempo e, por isso mesmo, nos formam. Ao eliminar ou reduzir drasticamente estas mediações, a inteligência artificial está a alterar a forma como nos relacionamos com elas – e, em última instância, connosco próprios (sobre isso, escrevi na obra “88 Vozes sobre Inteligência Artificial”, editada pela Oficina do Livro, enquadrada na crónica “Inteligência humana num mundo com IA”).

Nos últimos meses, constatei, de forma empírica e, seguramente, desarrumada, que a IA está não só a alterar a mediação entre nós e a realidade, como também a promover uma espécie de “externalização do pensamento”, mudando, muito rapidamente, o nosso papel, de “sujeitos que pensam” para “sujeitos que validam”. E se nesta deslocação quase silenciosa e subtil, há pessoas que não deixaram de pensar, no sentido mais puro do termo, (algo que implica compreender, articular e decidir sobre o próprio texto), uma larga maioria, deslumbrada, limita-se apenas a aceitar, ajustar ou reformular outputs gerados por sistemas automáticos, num cenário onde a experiência intelectual está a perder, aceleradamente, densidade. Não que os resultados tenham passado a ser, todos, necessariamente piores – muitas vezes são até mais claros, mais organizados, e mais eficazes do que os conteúdos que alguns nos disponibilizavam, a IA fez de muita gente iletrada, verdadeiros Saramagos (mas só na parte do aborrecimento) –, mas porque estão a deixar de ser “nossos”, no sentido pleno. Muito do que lemos por aí, muito “arrumadinho”, é escrito por pessoas a quem falta percurso, interioridade, estudo, experiência; a quem, no fundo, falta tudo aquilo que torna o bom pensamento valioso, por ser atravessado pelo tempo. Gente a quem não assola a dúvida, gerando apenas rápidas certezas.

À medida que muitos de nós, nos vamos habituando a soluções rápidas e apenas plausíveis, começamos a perder tolerância para o que não é imediato, para o que exige esforço, para o que resiste. A leitura prolongada, a construção de um argumento, o confronto com posições divergentes, tudo isso começa a parecer excessivo – e até inalcançável para muitos – face à alternativa de uma síntese pronta, limpa e convincente.

A IA, tal como foi concebida, pode ser usada para ampliar a experiência humana. Hoje, porém, não falta que a use para substituí-la. Quando simulamos conhecimento em vez de o construir, quando reproduzimos linguagem em vez de a habitar, quando delegamos juízo em vez de o formar, estamos a trocar experiência por uma mera representação. E, quem o faça, está a abdicar de viver partes essenciais daquilo que nos constitui como seres humanos.

É quase um clichê dizer que o problema não está na inteligência artificial em si, mas no modo como a integramos nos processos que definem quem somos. Se a utilizarmos para libertar tempo para pensar melhor, para aprofundar, para questionar, então a IA é, seguramente, um instrumento extraordinário. Mas quem a está a usar para evitar o esforço de pensar, para contornar a demora, para eliminar o confronto, para construir certezas não sedimentadas, então o ganho imediato obtido é apenas aparente, escondendo perdas profundas.

Valor, em última instância, é tudo o que resiste ao tempo. E tudo o que elimina sistematicamente o tempo – a demora, a fricção, o conflito, a responsabilidade – tende a produzir resultados que não perduram, nem nos transformam. A questão não é, por isso, se a inteligência artificial nos ajuda a fazer mais, pois não faltam processos em que os ganhos imediatos são, por si sós, valiosos e desejáveis. Mas, naquilo que nos define – o estudo, o crescimento pessoal, a defesa de valores e posições de barricada, a garantia do pluralismo, a criatividade de um romance, a escrita de uma crónica ou até de um mero post nas redes sociais – anular a experiência humana é destruir o valor da nossa existência. Pelo que, quem se deixa seduzir pela facilidade do que é artificial, está a anular a sua própria existência, a reduzir aquilo que ainda vale a pena viver. Por isso, os que têm medo de que o mundo seja dominado por androides movidos a IA, talvez devessem recear, antes disso, o esvaziamento da experiência humana e de todo o conhecimento que daí nos advém, tornando as pessoas em meros instrumentos, vazios nas suas vivências. As maiores inimigas da humanidade foram sempre as decisões humanas.

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