menu_open Columnists
We use cookies to provide some features and experiences in QOSHE

More information  .  Close

Liberdade?

33 0
01.05.2026

No domingo passado vi um vídeo curto de uma peça da SIC Notícias onde perguntaram a alguns jovens universitários se se vivia melhor agora do que antes do 25 de Abril. A resposta foi unanimemente que agora se vive melhor (ainda que um dos entrevistados tenha dito que também havia coisas melhores antes, como “a ordem”). Um dos problemas com as opiniões recolhidas na rua é que o editor deixe de fora opiniões contrárias às que ele considere correctas mas, neste caso, diria que é bastante provável que todos os jovens inquiridos, e não só os que aparecem na peça, prefiram viver no país actual, com internet, televisão a cores, meios de transporte e de comunicação rápidos e fiáveis, avances médicos impensáveis há bem poucas décadas e estruturas de capital mais intensivas que reduzem a necessidade de trabalho físico, do que naquele país pobre mas honrado, como o Regime gostava de o caracterizar na propaganda, a que as imagens de arquivo a preto e branco acentuam a tristeza. Isto mesmo quando num caso o desenvolvimento tecnológico tenha ficado a dever pouco a Portugal e no outro até existisse cor e gente feliz.

Mas o que me pareceu verdadeiramente interessante foi a única justificação que, sem excepção, todos deram: que agora existe mais liberdade. Melhor dito, o que me pareceu surpreendente foi a ausência daquelas justificações que não deram, mas teriam dado nos últimos 30 anos: que Portugal era agora mais próspero ou que as pessoas disfrutavam de melhores serviços sociais. Note-se que isto até é verdade, mas é verdade porque, como diria Newton, nos sentamos aos ombros de gigantes, no final de uma longa cadeia de riqueza acumulada e conhecimento adquirido. Mas não em termos relativos que é, afinal, como percebemos a passagem do tempo.

Em relação ao desempenho económico, há muito tempo que se dissipou a ideia de que o regime actual contribuiu mais para a riqueza dos seus cidadãos que o anterior. Até à década de 90 ainda era possível defender que a economia portuguesa era agora mais dinâmica e aberta ao mundo do que tinha sido nos tempos da velha senhora, e o optimismo da década anterior prometia que os anos 90 confirmariam essa extraordinária performance económica do país. Portugal parecia então um país não tão rico como os seus principais parceiros económicos, mas a caminho de o ser.

Os primeiros a aguar essa festa foram os historiadores da chamada Nova História Económica ainda durante a década de 90. Com o arrefecimento do fervor revolucionário, os números até então ideologicamente ignorados diziam outra coisa: sim, o país apresentou alguma convergência com os países desenvolvidos nos últimos anos, em particular a partir da adesão europeia, ajudado (mas não só) pelo fluxo de fundos europeus que entravam pelo país adentro, mas nada que se pudesse comparar com o milagre económico das décadas de 50 e 60, quando se resgataram literalmente milhões de portugueses da pobreza para uma vida incomparavelmente melhor que a que tinham tido os seus pais. É mais fácil convergir de........

© Observador