Carta de amor a um automobilista
Caro Henrique Raposo, obrigado pelo texto sobre os “ortodoxos da bina”. Na esperança que do diálogo surja mobilidade, decidi escrever-te também.
Apresentação Sou o Pedro, 42 anos, do Porto; ciclista diário desde 2002, não me imagino a circular doutra forma.
Uso uma BEEQ B400 elétrica, feita em Gaia, muitas vezes com as minhas duas filhas, 50Kg de gente, uma à frente e outra atrás.
Levo sempre capacete e roupa refletora, mas já tive um punhado de acidentes: metade por distrações minhas, outros por falhas dum pedal.
Já me irritei com automobilistas, ouvi buzinadelas, fiz gestos antipáticos.
Páro nas passadeiras todas e mal circulo nos passeios; já desrespeitei várias regras de trânsito, mas sem colocar em perigo ninguém além de mim próprio.
Privilégios Sou privilegiado de muitas formas: por viver e trabalhar no centro do Porto, por ter condições físicas para andar de bicicleta, por poder estacioná-la em casa subindo só três degraus, por não temer a chuva sob as roupas impermeáveis. Sei que grande parte dos portugueses não tem esta sorte, ao contrário dos holandeses e dinamarqueses.
Também tenho um carro que só se move para férias e cargas mesmo pesadas. Sim, caro Henrique, “estou” automobilista de vez em quando; imagino que por vezes “estejas” ciclista.
Fanáticos dos popós Há várias décadas que o automóvel está no centro da construção do país inteiro. Temos uma rede de autoestradas de luxo, parques de estacionamento por todo o lado, vias urbanas com duas ou três faixas em cada sentido. Boa parte da classe média-alta tem o carro como parte da remuneração e as empresas compram veículos elétricos com benefícios fiscais.
A comunicação social tem na indústria automóvel uma das principais fontes de publicidade, os nossos políticos circulam sempre de carro, os influencers e futebolistas exibem automóveis como símbolo do seu sucesso. Os transportes públicos não chegam a todo o lado, por vezes páram com greves, noutras não cumprem horários ou estão sobrelotados.
Neste contexto, como criticar quem usa o carro no dia a dia? Ou sonha poder usá-lo um dia?
No meio do trânsito, veículos de duas rodas são um alvo óbvio para a irritação de quem (eu também) tem 100 cavalos a relinchar por uma aceleração. Em 2023 a Bárbara Reis atacou as trotinetas; agora tu as bicicletas; não tarda alguém o fará sobre as motas.
Criados numa selva de automóveis, disparamos por instinto contra o que se mexe mais, ignorando que o maior problema é o próprio excesso de carros. E a culpa não é de quem os conduz nem de quem dispara palavras, é dum país (todos nós) que não nos dá melhor alternativa.
Medo e Morte Não duvides que há ciclistas que andam nos passeios, assustando peões, por puro medo dos carros; quando Portugal entrar na CEE e a velocidade máxima nas cidades for de 30Km/h, é provável que desçam ao asfalto para conviver com as 4 rodas. É verdade que muitos dos insuportáveis utilizadores de 2 rodas não respeitam o código da estrada; o mesmo acontece com muitos automobilistas.
O problema é que, quando “estamos” numa bicicleta, o nosso incumprimento nos pode custar a própria vida ou ferimentos graves.
Mas quando “estamos” automobilistas, ao volante de 1 ou 2 toneladas de metal e plástico, os incumprimentos matam e ferem os outros, em especial peões e ciclistas; recordo só alguns: Ana, 2025, Pedro, 2024, Patrizia, 2021, Ana, 2020.
Amor Caro Henrique: mais do que “estarmos” automobilistas ou ciclistas, somos cidadãos. Percorremos as cidades no meio de transporte que melhor nos serve em cada momento, e só queremos chegar rapidamente e em segurança ao destino.
Como sabes, em grande parte das ruas deste país, 80% do espaço está reservado aos automóveis, que estão parados 90% do dia e ocupam 10m2 cada um. Será abuso pedir mais espaço para quem caminha e pedala, e nem de 1m2 precisa?
Até para quem está automobilista é bom haver mais ciclistas nas ruas: parte das bicicletas são de gente que traria um carro, e assim permite que o trânsito flua melhor.
Os ciclistas urbanos, esses sortudos, talvez pareçam altivos ou arrogantes a quem está parado no trânsito; pelo que sei, sorriem pela satisfação de sentirem a cidade na pele, exercitarem o corpo, divertirem o espírito.
Eu sonho com um país que se vá afastando duma visão fossilizada do império automóvel como plano director nacional; e luto por isso. E tu, com que sonhas?
Quando vieres ao Porto, vamos dar uma volta de bicicleta; se eu passar por Lisboa entretanto, aceito a tua boleia. Um abraço do Pedro
P.S: Mais do que carros ou biclas, o importante é apostar a sério nos transportes coletivos, que têm que chegar a todos independentemente das suas capacidades físicas e económicas.
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