menu_open Columnists
We use cookies to provide some features and experiences in QOSHE

More information  .  Close

Honra os que vieram antes de ti

32 0
25.03.2026

Como se escreve sobre uma pessoa, que, a maioria dos eventuais leitores, não conhece?

Este foi o problema com que me deparei, ao querer escrever um texto, relativo aos 90 anos de idade do meu Pai.

Embrenhado nesse dilema, reparei num pequeno acrílico que comprei quando fui à Escócia ver um jogo de rugby, que apenas diz: Honra os que vieram antes de ti.

Esta frase tão singela (e Cristã) revela muito daquilo que – infelizmente – não se faz em Portugal, ou seja: Honrar em vida, aproveitar a experiência da idade, dar continuidade às gerações, conhecer a história. Quando formos capazes de tal fazer, podemos ter cá todos os imigrantes que existirem, que continuaremos – sempre – a existir. É isso que os políticos deviam exigir e não a construção de muros.

Vamos então conhecer este Pai, igual a tantos outros da mesma idade, que viveram metade da sua vida durante o Estado Novo, que foram à guerra, que desejaram o 25 de Abril, mas que também se desencantaram com muitas coisas.

O meu Pai nasceu em 1936, na freguesia da Lapa. Era vizinho de Pinto Balsemão, com quem jogava à bola no Páteo da casa deste. O ambiente na sua casa era republicano, oposicionista e ateu. Andou sempre na escola pública (óptima à época): Passos Manuel e depois Gil Vicente (onde conhece o futuro colega Morais Leitão – o Fritz) pois para poder ir para Direito era necessário ter alemão e latim, além do Francês (ainda hoje o seu inglês é fraco – a cultura dominante era a francófona).

Pratica desporto – Dardo – no Sporting e participa na inauguração Estádio de Alvalade (o velhinho). No entanto e por influência do seu Pai, é sócio do Benfica. Teria agora 80 anos de sócio. No entanto, em repúdio à direcção de Vale e Azevedo, que prejudicou o rugby do Benfica por décadas, cancela a inscrição. Num país com a tal cultura de respeito à antiguidade, o SLB teria repescado este sócio. Adiante.

Falo de rugby, porque essa é uma parte – fulcral – da sua vida. No 1.º ano de Direito, vai a Madrid na equipe de futebol da Faculdade. Acontece que o seu “jeito” foi notado por parte dos colegas de curso da equipe de rugby (fica amigo de Dias da Cunha), que o convenceram que estava no desporto errado. Junta-se, pois, ao Grupo Desportivo de Direito do qual é, ainda hoje, Presidente da Mesa da Assembleia Geral.

Na Faculdade, por culpa própria, reprova o 1º ano (o melhor aluno do seu ano é André Gonçalves Pereira). Sem apelo é chamado para o serviço militar (a guerra não tinha ainda começado, estávamos em 1959). Desembarca no Funchal como Aspirante – com direito a notícia do jornal local. Na Madeira conhece a minha Mãe, a mais nova de 8, filha de um fazendeiro germanófilo e de uma devota católica de Missa diária.

Volta a Lisboa, já casado, disposto a acabar o curso. Nasce o meu irmão António. Vivem com a ajuda dos meus avós e mudam-se para a........

© Observador