Uma flauta para Herodes
Não há uma única criança que não se sinta intrigada com o lugar onde estava antes de nascer. E todas elas relacionam o seu nascimento com uma ideia de viagem. «De onde é que eu vim?» é a pergunta que todas fazem às suas mães. E elas falam-lhes de aves sagradas que as trouxeram nos seus bicos; de peixes que lhes chegaram aos braços enquanto se banhavam; de cestos que as águas do rio arrastaram e que elas encontraram entre os juncos. Nessas histórias, está sempre presente a ideia de uma viagem, de um ser que vem de um lugar onde tudo é desconhecido, que talvez fosse até filho ou filha de um rei e que elas, as mulheres, tiveram de esconder para que mal algum lhes acontecesse. «Antes de estares comigo», dizem as mães aos seus filhos, «pertencias às árvores, às fontes e aos rios, eras dos animais da floresta; eu apenas te recolhi e cuidei.»
Há muitas histórias que falam do medo que as crianças sentem de serem abandonadas. Em Hansel e Gretel ou no Pequeno Polegar os irmãos são abandonados na floresta; o Patinho Feio tem de deixar a quinta onde vive porque ninguém o quer; a Branca de Neve foge do castelo porque a sua madrasta a quer matar. As crianças não entendem o mundo dos adultos. Chegaram tarde demais, e a sua única opção é aceitar as suas leis sem protestar. São estrangeiros num reino do qual não sabem quase nada: a infância é o primeiro e mais profundo dos exílios por que teremos de passar.
Em Woolpit, uma aldeia em Inglaterra, conta-se a história de dois irmãos que estavam perdidos na floresta. Tinham a pele verde, falavam uma língua ininteligível e comiam apenas verduras. O menino rapidamente morreu, mas a menina começou a alimentar-se da comida que comiam na aldeia e aos poucos foi perdendo a sua cor verde. Aprendeu a língua e........
© Observador
