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Kafka, Benjamin e a corcunda do amor

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16.02.2025

Em Infância em Berlim por volta de 1900, Walter Benjamin recorda a irresistível atracção que, na meninice, sentia por desvãos, sótãos, caves e outros espaços esquecidos das casas. Era ali que se acoitavam aquelas personagens que, nos contos infantis, se dedicam a pregar partidas aos habitantes. A mais famosa dessas personagens era, no folclore germânico da época, um anão corcunda – o Trapalhão – que aparecia quando menos se esperava, provocando um sem número de desastres. «O Trapalhão manda-te cumprimentos», dizia-lhe a mãe sempre que ele partia alguma coisa ou tropeçava escadas abaixo.

E quantas vezes não sentimos nós também a maliciosa presença dessa personagem a rondar-nos quando não encontramos os objetos onde os tínhamos colocado; quando os pratos e os copos nos escapam das mãos e se desfazem no chão; quando por esquecimento falhamos um compromisso ou salpicamos de azeite aquela camisa branca acabadinha de estrear? Era por causa dele, escreve Benjamin, que «o jardim se convertia em jardinzito, o meu quarto num quartinho e o banco numa banqueta: encolhiam e parecia que lhes crescia uma corcunda que os arrebatava por largo tempo para o mundo do corcunda trapalhão».

Adorno diz que as citações que Benjamin usa constantemente nas suas obras «são como salteadores que se lançam ao caminho para roubar ao leitor as suas convicções». O amor é um desses ladrões. Razão pela qual ele não escolhe um momento qualquer para aparecer, mas antes aqueles em que nos encontramos mais expostos: quando na despensa provamos às escondidas o doce preparado pela mãe; quando descobrimos a sexualidade; quando somos arrebatados pelo desejo.

Talvez sejam essas imagens de cada um de nós, acumuladas pelo corcunda, que compõem a outra história da nossa vida – a real? Benjamin recorda também a ladainha que todas as........

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