Garrett e as Folhas Caídas ou Bashô no Campo Grande
Assistir à manifestação visível de um poema japonês, escrito há dois séculos e meio, pode libertar no cérebro uma alegria tão súbita quanto as primeiras cigarras do Verão. Não se trata apenas das endorfinas — essa medicina secreta do corpo, que a música, o amor ou um sonho de inesperada felicidade sabem também convocar. Trata-se de outra coisa: de um instante em que aquilo que parecia disperso — uma cor, uma folha, um movimento de ar, uma recordação — se reúne diante de nós e adquire a maturidade do símbolo.
Então, por breves segundos, o mundo deixa de ser absurdo. Não porque tenha sido explicado, mas porque se torna legível. Uma ordem sem tirania, uma promessa sem palavra, uma espécie de concórdia entre o que vemos e aquilo que, sem saber, esperávamos ver. A beleza talvez seja precisamente isto: não a supressão da inquietação, mas a sua súbita reconciliação com a forma.
O haiku dizia mais ou menos assim:
De todas as folhas caídas,
apenas uma tenta regressar ao seu lugar:
Quando o li pela primeira vez, tentei imaginar o século de Bashô: as sandálias de palha, as cerimónias do Shinto, os espelhos e as espadas, a simplicidade grave das casas de madeira, o ikebana natural das ilhas japonesas nos crepúsculos de estio. Mas não conseguia ainda ver o voo daquela criatura subtil. O poema, composto de uma brevidade luminosa, parecia-me exótico, inteligente, quase perfeito — e, por isso mesmo, distante.
Mais tarde, porém, compreendi que a folha que caía e a borboleta que voava eram da mesma cor. De outro modo, não teria sido tão nítida a percepção do poeta, nem tão exacta a ilusão. O que o haiku captara não fora um engano dos sentidos, mas uma........
