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Um género de atirador

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02.09.2025

É possível que a palavra que melhor enforma o espírito da modernidade e a sua ampla confiança na ideia de progresso seja a palavra utopia. Não foi ela criada no início do século XVI por Thomas More para retratar a ambição humana de criar um lugar que, dotado de instituições justas e perfeitas, garantiria a felicidade dos homens? E não constitui este ensejo o propósito da modernidade?

É verdade que muitos recuam até Platão para traçar uma tradição utópica, encontrando n’A República um exemplo mais antigo de utopia. Mas mesmo aqui, a sofiocracia – o melhor dos governos, que seria, para Platão, o governo dos sábios – acabaria por degenerar em outras formas menos boas, de acordo com o espírito cíclico do pensamento grego. Os modernos são diferentes.

Para o pensamento moderno, a utopia seria um estádio final – aquele para o qual devemos gradual ou revolucionariamente caminhar e cuja distância é medida pela noção de progresso. Seria possível, assim, aperfeiçoar continuamente as instituições até acabar com as injustiças e as desigualdades. E perante as vozes céticas que questionavam se uma natureza decaída e imperfeita poderia garantir a utopia (dúvida que o próprio More expressou com a palavra u-topos, não lugar), começou a germinar a ideia de que não haveria uma natureza humana e que, por isso, não haveria limites nem condicionamentos ao que podemos fazer.

Ao longo do século XX, estas ideias foram amadurecidas pelo princípio de que tudo é construção social, o que significaria que nasceríamos como páginas em branco – a chamada teoria da “blank slate” ou tábua rasa – e tudo seria resultado de socialização.

O mesmo é dizer: todos os problemas do mundo resultariam de formas de socialização erradas, instituições mal organizadas e políticas públicas insuficientes. Mas todos esses males poderiam ser resolvidos politicamente.

Como acontece frequentemente com as ideias filosóficas, o seu problema reside no facto de serem interessantes no mundo das ideias, mas falharem no mundo real. Neste caso, não só os grandes projetos utópicos que........

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