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Inteligência degenerativa (2)

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23.02.2026

1. O mito das Cinco Idades

Ao lado dos dois grandes textos homéricos que influenciaram o Ocidente, temos de colocar Hesíodo, talvez seu contemporâneo (a doutrina diverge), e os seus dois textos clássicos: Teogonia, sobre a origem e a sucessão dos deuses, e o filosoficamente mais interessante Trabalhos e Dias. Voltaremos provavelmente a este último pela reflexão que promove sobre a importância do trabalho e a sua associação à justiça; por agora, interessa-nos o nele incluído “mito das Cinco Idades”, que permite identificar um dos aspetos que mais distingue os antigos dos modernos.

É que os antigos, ao invés de pensar no tempo como uma linha em direção a um mundo melhor e a uma humanidade aperfeiçoada, teimavam em salientar como as gerações se degradam. É por essa razão que, no mito das idades, passamos da idade de ouro para as idades de prata, bronze e, finalmente, ferro (os gregos introduzem a novidade de uma geração de heróis entre as duas últimas). A ideia de progresso parece, assim, tipicamente moderna. Mas estaremos realmente condenados à degenerescência das gerações?

É difícil ler o mito das idades sem pensar no chamado “Flynn effect” (que Maria João Afonso explica num episódio recente do 45 graus), de acordo com o qual seria possível encontrar um crescimento sustentado do quociente de inteligência (QI) nos testes que foram realizados ao longo do século XX por todo o mundo. Seria a degenerescência geracional desmentida pelo “efeito Flynn”?

Várias razões são apontadas para este registo, mas importa notar que, em Os Superficiais, Nicholas Carr já havia avançado com a hipótese de um salto cognitivo ter começado ainda no final da Idade Média quando a tradição oral foi substituída por uma progressiva prática de leitura privada, o que exigia um elevado nível de concentração:

“Nos espaços de silêncio, abertos pela leitura prolongada e concentrada de um livro, as pessoas faziam as suas próprias associações, retiravam as suas próprias inferências e analogias, desenvolviam as suas próprias ideias.”

Através de uma curiosa dinâmica, este esforço eminentemente individual traduziu-se em resultados coletivos, sobretudo depois de Gutenberg ter permitido uma partilha mais fácil do conhecimento. As gerações seguintes beneficiaram desse pensamento........

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