E se o problema não for nunca chegares?
Há uma forma de cansaço que não vem do excesso de trabalho, mas da constante tentativa de corresponder. Não é o corpo que cede primeiro — é a alma. A pessoa levanta-se, faz o que deve, tenta acertar, melhora onde falhou, dá mais um pouco de si. E, ainda assim, no fim do dia, fica aquela sensação difícil de explicar: não chega. Falta sempre qualquer coisa. Um gesto que não foi suficiente, uma palavra que podia ter sido melhor, uma presença que ficou aquém. E, lentamente, instala-se uma espécie de dívida permanente perante os outros, como se viver fosse um exame contínuo sem nunca haver aprovação final.
O mais duro não é falhar. O mais duro é o “quase”. Porque o fracasso, ao menos, tem contornos claros; sabe-se onde se errou. O “quase” não. O “quase” é uma zona ambígua onde tudo parece estar certo, mas nunca suficientemente certo. Quase bom, quase capaz, quase aquilo que esperavam. E viver assim é desgastante, porque obriga a um esforço constante para atingir um padrão que nunca se fixa. Quando parece alcançado, já mudou. Quando parece reconhecido, já foi esquecido. E a pessoa fica presa a esta lógica de tentativa infinita, como se o seu valor estivesse sempre um passo à frente dela.
Se olharmos com alguma honestidade para a vida concreta, percebemos que isto não é apenas uma experiência individual; é também uma dinâmica relacional. Há olhares que não acolhem, apenas avaliam. Há relações onde não se recebe o que se é, mas apenas o que se produz. E, nesses contextos, por mais que alguém se dê, nunca será suficiente, não porque falte algo no gesto, mas porque falta abertura no outro. Um coração fechado não reconhece — mede. Não escuta — filtra. Não acolhe — exige. E, no fim, qualquer realidade que não encaixe nas suas expectativas será........
