Nem falsos santos, nem convictos pecadores
Existe uma enorme confusão sobre o que significa a virtude na política. Uma confusão que é alimentada pelos próprios, que ora a usam como arma de arremesso (se estiverem na oposição), ora se fazem de vítimas (se estiverem no poder). Uma confusão, também importa dizê-lo, alimentada por uma certa corrente do Ministério Público e amplificada por muitos na comunicação social — alguns procuradores e jornalistas não resistiriam um dia num qualquer cargo político se a eles lhes fosse aplicado o grau de pureza que exigem aos outros.
Esta confusão tem um entre muitos efeitos perversos: se nos chocamos com tudo, então nada nos choca verdadeiramente. E esse é um terreno muito fértil para a relativização moral de todos os pecadilhos, por um lado, e para uma espécie de culpabilização coletiva muito em voga, muito ar dos tempos, e que pode ser resumida numa ideia: “São todos iguais, são todos corruptos e são todos corruptíveis”. Não são. Não são mesmo. Mas quando a hipocrisia de quem acusa e a sonsice de quem é acusado andam de mãos dadas, ninguém se pode queixar verdadeiramente pelo mau serviço que está a fazer ao país.
Exemplo prático número um: o caso de Luís Neves. Independentemente das auditorias e investigações em curso, existem três factos indesmentíveis: o atual ministro da Administração Interna e ex-diretor da PJ confirmou de viva voz ter cometido os pecados da informalidade (na questão do atrelado), da incúria (na questão da declaração de rendimentos) e da imprudência (na forma como tratava com o amigo empreiteiro, a quem chegou a entregar cinco mil euros em dinheiro vivo).
Por si só, estes três pecados merecem censura. Não são,........
